Super Bock Super Rock: 3º dia, 16 de julho [texto e fotos]
Strokes fecharam SBSR com concerto recheado de clássicos da sua lavra. Slash tocou Guns N' Roses, Brandon Flowers também lembrou os Killers e os Vaccines estrearam-se em Portugal. PAUS anunciam novo disco para outubro.
17h12
A BLITZ descobriu a melhor hora para chegar ao recinto do Super Bock Super Rock: depois de almoço. Sem grandes problemas de trânsito, o único senão é ter de esperar algumas horas sem qualquer atividade nos três palcos do evento. Seria bom dizer "o pó assentou", mas não... Continua muita poeira no ar, e a nossa garganta, nariz e olhos reagem logo aos primeiros passos que damos na Herdade do Cabeço da Flauta.
Mal entramos no recinto damos de caras com uma já longa fila para comprar tabaco (a banca abre no preciso momento em que passamos por ela) e o recinto já está salpicado de pessoas à procura de uma sombra para descansar. É o último dia de festival, mas os ânimos não esmorecem. Parece tudo preparado para receber as atuações dos nova-iorquinos Strokes e do guitarrista Slash. Agora, resta aguardar.
19h24
Em mais uma tarde marcada pelo calor, o Super Bock Super Rock 2011 aproxima-se do final. Pelo recinto veem-se numerosos festivaleiros com t-shirts de Velvet Revolver, Guns N' Roses e até Joe Satriani, dando a entender que muitos terão vindo ao Meco para ver Slash, o guitarrista que atua esta noite.
A BLITZ já falou com os Elbow sobre o concerto desta noite, o primeiro desde a estreia ao vivo em Portugal, há longos 10 anos. As diferenças entre esses tempos e o presente, no que à música dos Elbow concerne, e o sentido de humor "infantil" dos músicos foram alguns dos temas da conversa com Guy Garvey e Pete Turner, vocalista e baixista dos Elbow, a ler numa das próximas edições da revista BLITZ.
"Keep on Dancing" foi um dos primeiros temas oferecidos pelos X-Wife ao público, já numeroso, que se junta frente ao Palco Super Bock. Às 20h00 os PAUS tocam no Palco EDP, num concerto que deverá atrair muitos espetadores.
19h53
Aos portuenses
X-Wife
coube a "honra" (palavras do vocalista, João Vieira) de abrir o palco principal deste último dia de Super Bock Super Rock. "Partilhar o palco com os Strokes, que foram uma grande referência para nós, é uma honra", disse o músico depois de cantar o contagiante "On the Radio" e "Fireworks", um dos temas mais conhecidos do repertório da banda.
Entre regressos ao passado, os X-Wife foram brindando o público, que apesar de no início ser bastante menos que ontem à mesma hora já se concentra em grande quantidade (e a lutar contra um vento desagradável) frente ao palco, com as canções do mais recente
Infectious Affectional
. Os destaques foram para a "tentativa de balada" "Across the Water", a bamboleante "Keep on Dancing" e o momento "James Murphy à portuguesa" de "I Live Abroad". O homem que se segue é Brandon Flowers, hoje sem os seus Killers, com quem atuou neste mesmo festival há dois anos.
Brandon Flowers
é um homem bem parecido mas parece não acreditar nisso - depois de, com os Killers em 2009, proibir os fotógrafos de registarem o concerto no Restelo, voltou a trazer um fotógrafo oficial que, no final do espetáculo, entregará as fotos (retocadas, quem sabe?) à imprensa presente no festival.
20h00
Exatamente às 20h00 - entre as falhas do Super Bock Super Rock não está a falta de pontualidade - os quatro
PAUS
sobem, confiantes, ao Palco EDP. "Este barbudo é do caralho", diz alguém ao nosso lado. Refere-se, claro, a Joaquim Albergaria, mas Hélio Morais, que com o ex-Vicious Five partilha a famosa e tonitruante bateria siamesa, tem semelhantes super-poderes e igual número de admiradores.
A música dos PAUS, para a qual contribuem ainda os teclados, o baixo e as vozes de Makoto Yagyu e João Pereira, é uma viagem trepidante e maioritariamente instrumental, tão dada ao velho "partir tudo" do rock and roll como ao fazer mexer ancas alheias, convidando a uma festa quase tribal, xamânica. Para tal contribuem não só o som infatigável e colorido dos PAUS, como a sua postura em palco, desafiante e celebratória.
"Isto é um gajo, não é uma gaja", esclarece um fã quando Makoto Yagyu ganha novo protagonismo, aparecendo na boca de palco para incentivar a participação popular. O público não arreda pé e, apesar de reagir com mais entusiasmo às músicas do EP
É uma Água
, também mostra curiosidade em relação aos inéditos hoje apresentados. O disco novo, explicaram os PAUS, deve sair em outubro e foi apresentado, neste final de tarde, por duas canções que carregam nas vertentes dançáveis. Com Makoto na voz, cantando algo sobre "tambores" (?), uma das músicas contempla também uma "secção" mais exploratória e teclados algo espaciais. Aliás, se tivéssemos de classificar a música dos PAUS, as etiquetas de "tribal", "catártico", "veloz", "espacial" e "psicadélico" haviam de vir à baila.
Apesar do contentamento do público com o concerto dos PAUS, já se nota, como é habitual no último dia de um festival, algum cansaço entre os foliões, muitos deles com t-shirts de bandas (os Joy Division andam bem representados) ou espirituosas, e ainda mais com os pescoços queimados pelo sol. A noite, porém, ameaça ser a mais fria do festival, com um vento frio a marcar este lusco-fusco.
21h53
Os britânicos Elbow estão neste momento a tocar no palco principal, por onde antes passou o norte-americano
Brandon Flowers
que, sem os seus Killers, veio apresentar o álbum de estreia a solo. Visivelmente bem disposto, o músico não só passou pelos momentos mais altos de
Flamingo
como aproveitou também para fazer uma versão de "Bette Davis Eyes", que ganhou fama na voz de Kim Carnes em 1981, e de revisitar - em versão remisturada - os seus próprios Killers com "Mr. Brightside", tema com o qual encerrou a atuação.
Com a voz em boa forma e o estilo irrepreensível com que sempre se apresenta (qual a razão para não se deixar fotografar, mesmo?), Flowers deu início à atuação com "Crossfire", tema que serviu de cartão de apresentação de
Flamingo
, e passou também pela s agitadas "Jilted Lovers & Broken Hearts", "Magdalena" ou "Only the Young" e as mais introspetivas "Swallow It" e "Playing with Fire". Pelo meio, recuperou ao repertório dos Killers "Read My Mind", para satisfação do muito público que se juntou para o receber.
Depois de o músico de Las Vegas abandonar o palco a debandada foi grande e quando chegámos perto do palco secundário percebemos porquê: muitos foram aqueles que não quiseram perder a atuação dos
Junip
de José González. A banda sueca ajudou a manter os ânimos calmos durante um concerto que não passou do registo "quentinho à beira da lareira", com González a jogar charme e simpatia atrás da sua guitarra acústica.
A voz cheia de mel de González foi alvo de muitos aplausos e deixou a audiência hipnotizada com a beleza de canções como "Black Refuge", e as suas guitarras serpenteantes, ou "Rope and Summit", calmo e relaxante. Num português quase perfeito, González diz "Muito obrigado", antes de acrescentar já em inglês, "Obrigado por nos convidarem a vir a este sítio magnífico, a este festival magnífico". E rumamos a outras paragens.
21h45
Os
Elbow
, que recentemente lançaram a sua própria marca de cerveja, fazem um brinde ao público português, que não viam há 10 anos - desde aquele fim de tarde no Sudoeste 2001, que na sua memória registaram como "o dia da Polly Jean e da Goldfrapp". Desde então, os ingleses mantiveram uma dignidade e coerência acima da média e viveram, em Inglaterra, uma espécie de conto de fadas quando, há três anos,
Seldom Seen Kid
ganhou o prémio Mercury e vendeu um ror de discos, garantindo-lhes uma espécie de segunda vida. Em Portugal, os ecos do sucesso dos Elbow nunca se fizeram ouvir alto e bom som, e Guy Garvey, o vocalista que nos faz lembrar um velho lobo do mar, parece saber disso. Entre músicas, pergunta "are you still ok?", como quem tenta tomar o pulso à multidão; diz ao público que os portugueses são os mais bonitos do mundo, para depois confessar dizer isso a todos; dedica uma música às pessoas "que se apaixonaram hoje", e quando a reação é pouco sonora, brinca: "Sim, para vocês os dois". Esta postura de humildade e simpatia - chega mesmo a pedir aos espetadores que cantem, em português, os parabéns ao baixista Pete Turner - compensa a falta de conhecimento que muitos dos presentes parecem ter da obra dos Elbow.
Guy Garvey tem, também, uma voz que soa a abraço, cheia de alma e calor, que assenta que nem uma luva nesta música quase atmosférica, sem pressa de chegar a refrões pomposos, mais preocupada com a viagem do que com o destino. Faltam-lhes êxitos que o público reconheça, mas mesmo assim a reação a esta música emocional, por vezes soturna, outras brincando ao sinfónico, é amável: as belas "The Birds" e " Lippy Kids", do novo
Build a Rocket, Boys!
, caem bem numa noite em que as nuvens tapam a lua (e foi Garvey que nos chamou a atenção para isso). Percebendo não estar a jogar em casa, o vocalista apostou em pequenos truques - a "lição" de cantoria antes de "Grounds for Divorce", o assobio de "Lippy Kids", o apelo para que o povo ponha as mãozinhas no ar - para manter desperto o público, menos numeroso que ontem mas ainda assim perfazendo uma considerável mancha humana.
22h40
Está muita gente no Palco EDP a ver
Ian Brown
que, com traje de ir passear ao supermercado ao fim de semana, canta enquanto saltita sem sair do lugar. Além dos instrumentos mais convencionais, há na banda do ex-Stone Roses um trompetista, que deu um colorido tex-mex a algumas das músicas tocadas esta noite. Mas o alinhamento - que passou por "Golden Gaze" ou "Dolphins Were Monkeys" - é o que menos importa salientar numa atuação com paragens abruptas (problemas técnicos ou algo mais, não conseguimos entender a razão do pára-arranca), discursos que o sotaque cerrado de Manchester tornaram algo impercetíveis (mas uns "fuck yous" indignados estavam lá pelo meio, com certeza) e até comentários sobre o FMI e a crise. Se Ian Brown, que conserva aquele carisma gingão ("swagger" é o que queremos dizer) mas parece completamente desnorteado em palco, é a pessoa indicada para tirar Portugal do buraco financeiro, não sabemos dizer. Mas foi neste modo errático que prosseguiu a sua atuação, à qual o povo ia reagindo com graus variados de atenção: bem lá à frente, há quem aproveite para sacudir os sapatos, libertando-os do pó, enquanto Ian Brown discorre sobre as máscaras de pó dos festivaleiros. "Isto é uma desgraça", lamenta alguém ao nosso lado, enquanto outros chamam pelos Vaccines, a revelação britânica que toca no mesmo palco dentro de momentos. Outro fã fez um veredicto mais bem disposto - "Barracada à boa maneira de Madchester!". Mas o facto de o único espetador que vimos trajado à moda brit - com uma t-shirt a dizer "britpop" - se passear desconsolado junto à zona de restauração quererá dizer algo sobre a receção ao primeiro concerto de Ian Brown a solo em Portugal.
00h31
"Are you ready to rock and roll?": foi com esta provocação que o público recebeu em palco o mestre da guitarra,
Slash
. Numa noite de "desajustados" (porque ouvir os Elbow saberia muito melhor num local onde mais gente os conhecesse), o ex-Guns N' Roses apostou no seu magnetismo (acreditamos piamente que o poder está na cartola) para entregar solo atrás de solo, sem que as canções do seu álbum a solo, cantadas por um eficiente Myles Kennedy, conseguissem arrancar o público de uma apatia difícil de contornar depois de três dias intensos de música e pó.
A voz abagaçada de Kennedy - não poucas vezes apostada em copiar tiques vocais de Axl Rose - foi percorrendo temas como "Ghost" (que abre também o álbum de estreia a solo do guitarrista), "Mean Bone", do projeto Slash's Snakepit, "Back From Cali), composto a meias por Slash e Kennedy, ou "Promise, originalmente cantada por Chris Cornell.
No entanto, só quando tirou os grandes coelhos da cartola que colocava na cabeça durante o seu percurso com os Guns N' Roses - depois de apresentar de forma discreta "Nightrain" e "Mr. Brownstone" - é que Slash conseguiu ter o público consigo (não vimos um único headbanging ou air guitar à nossa volta durante o concerto todo). E esses momentos chegaram já bem no fim: primeiro foi "Sweet Child O'Mine", com o seu famoso solo, que teve direito a coro alargado e festejos acalorados, depois foi "Paradise City", que encerrou a atuação de forma convincente.
Ainda ouvíamos os últimos acordes de "Paradise City" e já nos encaminhávamos para o palco secundário, onde os britânicos
Vaccines
davam o seu melhor para encerrar as actividades no palco secundário. Com muita gente a ver, mais do que a esperada, a banda que se estreou este ano nos álbuns lá foi atirando as suas canções rápidas e eficientes ("Post Break-Up Sex" foi oferecida logo na sequência inicial).
A voz menos encorpada que em álbum, e curiosamente muito mais monótona, de Justin Young foi-se passeando entre um "Wreckin' Bar (Ra Ra Ra)" a atirar para Kaiser Chiefs, um arrastado e apagado "A Lack of Understanding" e o solene "Wetsuit". A falta de garra que se sentiu em palco passou para um público que parecia adormecido.
00h45
"Então e aquele Slash? Fucking legend". Tinha começado há pouco o concerto de
Strokes
e Julian Casablancas, de regresso ao blusão de cabedal e aos óculos de sol, depois do traje rubro e futurista da visita a solo do ano passado, metia conversa com o público português. Ao longo do espetáculo, breve e certeiro, Casablancas mostrou, de resto, uma boa disposição fora do comum, interpelando os fãs que levaram cartazes a pedir canções ("Essa vamos tocar... essa não, mas gosto muito de vocês na mesma") e elogiando a musicalidade do público português. "Esta é uma noite de estreias - acho que nunca tínhamos 'jammado'!", espantou-se o vocalista, quando a banda se lançou num fugaz improviso, inspirada pelas palmas que a plateia, entusiasmada, batia a compasso entre as músicas.
Tal como nos aconteceu ontem durante o concerto de Arcade Fire, voltámos a reparar como o som chegava com deficiência às últimas "camadas" de público. Mas à medida que o espetáculo - bastante interessante em termos visuais, com um jogo de luzes simples mas forte - foi avançando, o som melhorou um pouco e a celebração tornou-se mais importante. É curioso que Casablancas tenha dito que Slash, "a fucking legend", tem "as melhores guitarras e os melhores solos", porque assistir a um concerto dos Strokes é perceber o incrível protagonismo das guitarras. Mais do que as letras, são os solos e os floreados de guitarra, a cargo dos estilosos Nick Valensi e Albert Hammond Jr., que o público entoa de forma eufórica. "Reptilia", logo a terceira música da noite, deu origem a um coro ostensivo das "escadinhas" da guitarra, repetida pelos fãs de deditos (e cerveja) na mão. A cena repetiu-se em "You Only Live Once", "Hard To Explain" ou "Under Cover of Darkness" - uma das canções novas que mais se enquadram no cânone Strokiano. Por falar em
Angles
, não somos os maiores fãs do quarto álbum dos americanos, mas não há como negar que o jeitinho arregaezado de "Machu Picchu" ou a bossinha nova de "Life is Simple in the Moonlight" até fizeram boa figura.
Em todo o caso, e como seria de esperar, a maior despesa da festa coube aos clássicos: "Last Nite", "New York City Cops" (logo a abrir) e "Take It or Leave It", na despedida abrupta e sem encore, são daquelas canções que, se estivéssemos a falar de um set de DJ, salvariam qualquer pista do marasmo, espalhando alegria pelo recinto fora. E os maiores clássicos dos Strokes concentram-se em
Is This It
, a estreia que Albert Hammond Jr. descreveu, em entrevista à BLITZ, como uma foto da banda aos 20 anos - "e aos 20 anos fica-se sempre bem na foto". Como é evidente, 10 anos depois os Strokes continuam um prodígio de fotogenia (Julian Casablancas passeia o seu sex appeal, 80% de preguiça cool) e mesmo com um álbum menos feliz no lombo conseguem dar um concerto divertido, eficaz e a espaços empolgante, como um breve "shot" da Nova Iorque que trazem nos bolsos dos blusões. O final é que não teve tanto glamour - quando todos esperavam um encore, começa a tocar "I Used To Love Her" no sistema de som do SBSR. Mas, ultrapassado o choque, cantou-se Guns N' Roses como minutos antes se tinha gritado "Take It or Leave It". Amigos como dantes.
Texto:
Lia Pereira
e
Mário Rui Vieira
Fotos:
Rita Carmo/Espanta Espíritos