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Há uma semana falei por aqui de internet, de acesso à informação e de como essa abertura de uma janela tecnológica sobre o mundo transformou tudo à nossa volta. Num dos comentários, um leitor manifestava assombro por haver quem ainda recorde tal momento. Como é óbvio, quem já nasceu imerso nesta nova realidade não pode precisar quando começou uma ligação que esteve sempre lá. Por vezes, e sem espantos, nem consegue sequer conceber que possa ter existido uma época em que tal facilidade de acesso a tudo não existisse, esquecendo que qualquer "depois" implica sempre um "antes". Mas hoje prometo falar menos do "antes" e mais do "agora". Só para variar.
Outro dos leitores, dono do divertido nick sargentopepper, reparou num dos comentários da referida crónica e manifestou desejo de que eu pudesse elaborar um pouco mais a ideia contida nas frases que a seguir transcrevo: "Mas não ter saudades do passado, não significa que se deva desconhecê-lo. É que nem sempre foi assim. E sinceramente acredito que tanta gratificação instantânea no que ao acesso à música diz respeito não ajuda a que se valorize devidamente o que se ouve. Outra conversa para outra altura, com certeza, mas é o que penso". E como não há altura como o presente, cá vai...
"Mais" não significa "melhor". E penso que essa é uma ideia que não merece discussão. Sim, é verdade que se faz mais música: o custo de registar som caiu dramaticamente, arrastando atrás de si todo um outro conjunto de problemas, incluindo o da compressão digital que parece quase forçar a que tudo soe ao mesmo.
Sim, é também verdade que se edita mais música, mas de novo nem tudo são rosas: sempre me interessaram as linhas invisíveis com que se tecem catálogos, as linhas gráficas, as bandas residentes, os produtores, arranjadores, engenheiros de som que fizeram a glória de marcas como a Blue Note, a Verve, a Motown, Atlantic, a Island, a Salsoul, Tommy Boy até aos dias da Mo' Wax, da Ninja Tune ou Stones Throw - esse tipo de aglomerados estéticos poderá estar a desaparecer, deixando definitivamente encerrada no passado uma prática que suportou alguns dos maiores desenvolvimentos na história das músicas populares.
E sim, consequentemente é também verdade que se ouve mais música. Mas ouvir e escutar e perceber são coisas muito diferentes. O ritmo com que se ouve é também ele profundamente diferenciado - passou-se de se medir uma coleção em número de prateleiras de uma estante para o número de folders e terabytes que se possui. E deixando de parte considerações sobre o método de angariação de conteúdos para todos esses folders - ideia aliás por trás do modelo de negócio do iCloud: uma espécie de começar de novo, um "all is forgiven" da idade digital - a verdade é que se "mais" não é de todo "melhor" também não será necessariamente "pior". Não é a quantidade, portanto, nem a forma de chegar a essa quantidade que realmente importa. Mas o que se faz com ela.
Criou-se uma espécie de ideia de corrente no que à nossa forma de relacionamento com a música diz respeito. A seguir a um álbum nunca pode vir o mesmo álbum, mas outro, um novo elo numa cadeia infinda (e será que o álbum ainda é uma escala popular?). É essa a ideia na base dos festivais: estímulo, atrás de estímulo, atrás de estímulo. Não conheço ninguém que alguma vez tenha abandonado um festival depois de ver um concerto brilhante (bem, uma vez, em 1999 se não estou em erro, fui ao Sudoeste só para ver e ouvir DJ Shadow e depois vim-me embora, mas houve outras razões para tal). Pensa-se sempre "já que estou aqui vou ver o resto". A mesma ideia aplica-se aos downloads quase compulsivos: para quê apanhar só um disco neste ou naquele blog de novidades se eles oferecem de mão beijada tudo o que saiu neste mês? Para quê então passar uma semana só com um disco no iPod se tenho não sei quantos gigas de memória e posso ouvir muito mais coisas? Para quê sacar um álbum relevante dos Smiths se o Google me conduziu a um Torrent com os melhores 200 álbuns de indie rock?
Eu tenho respostas para todas estas perguntas. Mas são as minhas respostas. E o que é válido para mim pode ser perfeitamente injustificado para outra pessoa qualquer. A ideia é mesmo cada um procurar as suas respostas. E depois fazer mais perguntas. É assim que funciona.
Crónica de Rui Miguel Abreu
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