Optimus Alive'11: reportagem e fotos do 4º dia, 9 de julho
30 mil pessoas (números da organização) no último dia do Optimus Alive'11. Já há datas para 2012. Jane's Addiction deram concerto estrondoso, Paramore tiveram fãs em palco consigo. Saiba mais e veja as fotos.
Leia aqui a nossa reportagem do Optimus Alive'11 e veja as fotos de Jane's Addiction, White Lies, Kaiser Chiefs ou Linda Martini.
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18h50
O quarto e último dia do Optimus Alive'11 já começou e o cansaço acumulado é notório. Entrámos no recinto diretos ao palco Super Bock, onde estão a atuar os britânicos
Wu Lyf
. O quarteto sensação de Manchester apresenta-se frente a uma plateia que já não consegue esconder a fadiga - recorde-se que ontem, a esta mesma hora, os Friendly Fires faziam a festa e punham o público em peso a dançar - e já não tem grande ânimo para aplausos. Ainda assim, a banda mostra-se divertida e com energia para dar e vender.
Os Wu Lyf deram nas vistas por manterem uma certa aura de secretismo, mas aqui não há grandes segredos: o teor indie das canções eficientes do primeiro disco
Go Tell Fire to the Mountain
. Da crueza de "Spittting Blood" ao intimismo de "14 Crowns for Me & Your Friends", a banda imberbe (não sabemos as idades reais dos quatro elementos, mas apostamos que ainda não passaram a marca dos 20) parece ir conquistando apoiantes, que se divertem com as piadas lançadas pelo vocalista e o baixista (apresentado como Justin Bieber, antes de afinar a voz para imitar o jovem cantor canadiano).
Chegados à sala de imprensa - depois de passarmos pelo palco Optimus Clubbing, que continua tão animado quanto ontem com as eletrónicas de Shadow Dancer, e de quase sermos abalroados pela parada liderada pelos Homens da Luta - somos informados de que o rapper britânico
Dizzee Rascal se viu obrigado a cancelar o concerto no palco Super Bock devido a problemas com o voo que o traria a Lisboa. O projeto português Diabo na Cruz vai substitui-lo (o início do concerto está marcado para as 22h45).
18h20
"Os nossos concertos são tanto melhores quanto vocês os fizerem - vamos fazer todos por isso". O apelo é de Hélio Morais, baterista todo-poderoso e espécie de porta-voz dos
Linda Martini
. A banda apresentou-se no Palco Super Bock ao fim da tarde - apesar de se ter dirigido ao público com um adiantado "boa noite" - e sentiu algum desequilíbrio na balança do empenho.
Maioritariamente instrumental, a música dos Linda Martini tem uma energia virulenta que se presta à libertação via gritos ou longas cavalgadas com guitarra, baixo e bateria (Hélio Morais, mais uma vez, a partir o enxoval todo). Do que lhes conhecemos, os rapazes e a rapariga de "Amor Combate" - até hoje, uma das músicas mais celebradas de qualquer concerto - dão tudo o que têm e não costumam entrar a medo, nem fazer qualquer gestão de esforços. Esta tarde, apesar de alguns cartazes com mensagens de encorajamento como "Linda, podemos ser amigos mortais?", pareceu-nos que foi o público que esteve um pouco sonolento para um ataque rock desta natureza, sem preliminares nem nada. Ainda assim, o single "Mulher-a-Dias" e "Amigos Mortais", com o público a aceder ao pedido de palmas das baquetas de Hélio, mexeram com o Palco Super Bock. "Já vos vi mais mexidos", provocou a certa altura o baterista. Terá resultado pois, no final, convenceu os seguidores a entoarem com a banda a famosa deixa
"foder é perto de te amar"
, a cappella.
21h15
Os britânicos
White Lies
mostraram-se bastante agradecidos por terem tanta gente a vê-los. E com a mesma competência com que no ano passado atacaram a sempre exigente plateia de Paredes de Coura, fizeram do concerto no palco Optimus um verdadeiro triunfo. Começaram em grande com "Farewell to the Fairground" e prosseguiram entre muitos aplausos por temas fortes como "Strangers", do segundo e mais recente
Ritual
, "To Lose My Life" ou "The Price of Love" (que, confessamos, é bastante mais agradável em palco que em disco).
Sorridente por a tarde lhes estar a correr tão bem, o vocalista Harry McVeigh deu largas à sua voz desolada (não desoladora) em composições tão negras quanto "Death" (dedicada ao público que os acolheu tão bem) ou "A Place to Hide". Já na reta final, "Bigger Than Us" mostrou, ao receber aplausos volumosos, que o caminho dos White Lies continua a ser sempre a subir.
No palco Super Bock, os
Foals
provaram que o virtuosismo que mora em Oxford não é um exclusivo dos Radiohead, assinando um dos melhores concertos da noite. A banda atraiu muito mais público do que aquilo que conseguiríamos imaginar, apostando forte no muito elogiado segundo disco,
Total Life Forever
, para mostrar as suas credenciais no primeiro concerto em terras lusas.
Chegámos ao espaço alternativo do evento, vindos dos White Lies, no exato momento em que Yannis Philippakis e seus comparsas entravam em palco. A gritaria avolumou-se e aí percebemos que este não ia ser só mais um concerto. "Blue Blood" abriu a atuação de forma gingona e desde então o público nunca mais parou de saltar e aplaudir. "Cassius" foi recebida com histeria, mas foi com a sensível "Spanish Sahara" que o público ficou no ponto - o medo que tínhamos de a voz de Philippakis se encolher num registo mais agudo - e carregado de mel - desvaneceu-se nos primeiros instantes.
Para o final, algo repentino - aparentemente, a banda já tinha esgotado o seu tempo, para desilusão generalizada - ficaram reservados a gingona "Red Socks Pugie" e "Electric Bloom", que levou todos à loucura, com o vocalista a ajudar nas percussões endiabradas (que levou consigo até ao fosso, bem perto do público). Um triunfo, inesperado ou não.
20h30
Não era muito complicado circular até à frente do Palco Optimus, no começo do concerto dos
Kaiser Chiefs
, que atuaram ainda com a luz do sol a banhar o Tejo. Quando marcaram esta série de concertos, disse-nos Ricky Wilson em entrevista à tarde, ninguém sabia que a banda tinha um disco novo gravado e prestes a sair,
The Future Is Medieval
. Preparado em segredo e lançado de forma insólita - cada fã podia fazer o seu alinhamento, escolhendo dentre 20 canções e pagando por cada download - o quarto álbum não é, todavia, o prato forte do concerto desta noite. Embora "Little Shocks", uma das primeiras amostras do disco, não seja uma má canção, são músicas como "Everything I Love You Less and Less", que abriu o alinhamento, a mexer mais com o público.
Neste momento da sua carreira, os Kaisers já não parecem atrair multidões tão volumosas ou frenéticas como noutros tempos mas, ainda assim, é em palco, pela energia e pela entrega, que se distinguem da restante matilha pop-rock. Cada vez mais magro, Wilson salientou, na mesma entrevisa, que os Kaiser Chiefs sempre tiveram o seu lado negro: e realmente, por muito borbulhantes que sejam, "Everyday I Love You Less and Less" ou "I Predict a Riot" não têm propriamente uma mensagem positiva. Mas os espetadores parecem reagir mais à imediatez da coisa - atrás de nós, comenta-se como os ingleses de Leeds são "boa onda". E os Kaisers não defraudam essas expectativas, oferecendo um concerto de ritmo elevado em que Ricky Wilson, sempre ele, corre pelo corredor junto ao público, brinca com a pandeireta e as câmaras, vai buscar uma cerveja para desespero dos seguranças. Tudo isto num fim de tarde bem bonito em que o vocalista dos Kaisers não desarma: apesar de as músicas novas ainda não estarem no ouvido do povo, o concerto é vitorioso muito por mérito da inacreditável desfaçatez do pequenito Ricky Wilson, disposto a prolongar este sonho até quando for possível.
21h40
A tenda não está cheia quando o concerto dos TV on the Radio começa, mas há um riacho de gente que aflui ao Palco Super Bock quando Tunde Adebimpe saúda os presentes com um efusivo "olá, qué tal?". Para uma banda conhecida pela diversidade dos estados de espírito, nem todos saltitantes, o arranque marca e contagia pela energia, com palmas de parte a parte e uma aura eletrizante.
Os TV on the Radio cresceram muito desde a primeira vez que os vimos ao vivo, num longínquo festival Super Bock Super Rock. Hoje, é muito mais intensa a sua ligação com o palco e muito mais feliz a forma como absorvem e retribuem a energia do público e da sua própria música, por vezes complexa mas sempre cativante.
Em palco, os nova-iorquinos emanam também um carisma muito particular, algures entre o geek e o freak (perdoem-nos os estrangeirismos); se nunca deixam de parte a tal complexidade a que alguns chamam intelectualismo, também não viram as costas à diversão, à dança, ao frenesim de pés e mentes. É assim em "Halfway Home", que abre o concerto, ou "Dancing Choose", que se lhe segue, com a voz de Adebimpe a explorar aquela rezinguice bem disposta e os gestos expansivos que o fazem parecer um pregador. Perante um público cada vez mais numeroso, Adebimpe, Kyp Malone, Dave Sitek (com um espanta espíritos pendurado no braço da guitarra) e companhia conduziram um concerto em crescendo. Ouvimos "Will Do", do novo
Nine Types of Light
, e percebemos que, de um caos amansado, nasce a catarse ou, pelo menos, alguma beleza. E isso, mesmo que o palco nem sempre faça justiça a esta música mil folhas, é muito bom.
No outro palco,
a entrevista com Perry Farrell
- uma estrela rock como já não se fazem - chamava por nós, pelo que não ficámos até ao fim do concerto, mas sabemos que "Wolf Like Me" fez as honras do adeus. Para quando um regresso em nome próprio?
Do concerto dos
Jane's Addiction
esperem-se coisas nunca antes vistas no Optimus Alive, como bailarinas suspensas por piercings na pele (vimos a sua preparação e sobrevivemos para contar a história).
23h15
Os norte-americanos
Paramore
acabam de abandonar o palco Optimus aparentemente tão contentes com esta estreia em Portugal como os fãs, que se mostraram incansáveis durante a atuação. Depois de um início que ficou marcado por um "Feeling Sorry" muito participado, Hayley Williams - vocalista que em tempos foi considerada a mulher mais sexy da música pelos leitores do site BLITZ - explicou, a quem não soubesse ainda, que esta era a primeira vez da banda em Portugal. No decorrer do concerto, não se cansou de dizer o quão contente estava com essa primeira experiência.
Cabelo pintado de vermelho - com raízes à espreita - e calças originais - uma perna branca e outra perna preta - a cantora revelou-se um pequeno furacão de simpatia em palco. Com um público que tem as letras todas na ponta da língua, torna-se complicado perceber qual o ponto alto de uma atuação que passou por um "That's What You Get" que exigiu colaboração intensa, umas aceleradas "For a Pessimist, I'm Pretty Optimistic" e "Emergency", e um momento muito especial. "Não costumamos tocar canções lentas em festivais, mas hoje vamos tocar uma canção de amor para vos mostrar o quanto gostamos de vocês", explicou Williams antes de se atirar a "The Only Exception", com ajuda de guitarra acústica e o público em peso como coro (houve chuva de fagulhas em palco no final e tudo).
Antes de tocar um novo tema, "Monster", da banda-sonora do filme Transformers 3, a cantora conseguiu ainda pedir algumas lições de dança aos portugueses: "Esperámos seis anos para tocar para vocês. Não nos desapontem!", exclamou. E foi ao som de "Crush Crush Crush" que Hayley aprendeu a dançar à portuguesa. No fim, o público gritou "Paramore, Paramore" e a cantora pediu calma, "está tudo bem", visivelmente satisfeita. Para terminar em grande, depois de dizer "OK, Portugal. É agora. Só temos mais uma canção", Williams resolveu pedir ajuda aos fãs para a ajudarem com "Misery Business". Levou um rapaz e uma rapariga para o palco (o guitarrista foi ainda resgatar uma terceira, para o substituir) e o resultado satisfez não só a banda como todos aqueles que aplaudiam na audiência.
00h30
Contrariamente ao que podíamos temer, num dia dominado por bandas com um eleitorado mais jovem, os
Jane's Addiction
tinham uma multidão simpática à sua espera, nesta tardia estreia em Portugal. 21 anos (!) depois de
Ritual de lo Habitual
, os norte-americanos ainda são uma banda muito excitante de ver ao vivo (e não falamos - apenas - do efeito nas hormonas das carnes secas de Dave Navarro). O som dos Jane's Addiction, certamente uma das bandas que mais vezes se separaram e reuniram, tem uma camada metalizada e abrasiva, mas contorna com um jogo de cintura espetacularmente sexy (repetiremos esta palavra algumas vezes) os piores códigos do género. Com doses sábias de androginia, humor e, bem, sexo, os homens de
Nothing's Shocking
têm margem de manobra suficiente para colocar duas moças - "suspension artists", era como estavam creditadas no camarim - penduradas por piercings na pele, amordaçadas e de mãos atadas em lingerie, sem ofender ou chocar gratuitamente. Tudo faz o seu sentido, neste espetáculo a espaços burlesco e circense, mas nunca apalhaçado. E depois há Perry Farrell, um frontman como já não se fazem (ou já não nascem), de uma extravagância magnética e uma voz de impacto invulgar, penetrante. Esta noite, com a sua pose de matador e lenço colorido, parecia um toureiro, mas em bom, e de garrafa de vinho tinto português na mão e verve provocadora, dominou o público a seu bel-prazer.
Em Portugal, os Jane's Addiction nunca foram a mais conhecida ou popular das bandas, mas isso não impediu este nova-iorquino de nascença, californiano de adoção e temperamento, de tomar o palco com um poder felino, lembrando-nos a falta que faz esta selvajaria com faísca na música de hoje. De "Ted, Just Admit It" à nova "End to the Lies", passando pelas delirantes "Just Because" ou "Been Caught Stealing", recebidas em braços, o que os Jane's Addiction provam, em 2011, é aquilo de que nunca nos devíamos ter esquecido: que o rock não tem de ser monolítico, monocórdico e, já agora, "monossexual". Perdoem-nos os leitores que votaram em Hayley "Paramore" Williams como figura mais sexy da música, mas os Jane's Addiction foram a banda mais sexy do Optimus Alive'11 e, a par dos Grinderman de Nick Cave, protagonizaram um verdadeiro "triunfo dos velhos", nesta edição do evento de Algés. Liberdade e escapismo - nem de propósito, o próximo disco dos Janes' Addiction, com participação de Dave Sitek, dos TV on the Radio, chama-se
The Great Escape Artist
- foram os grandes trunfos de Farrell, Navarro e Stephen Perkins na arte de transformar cada canção num espaço de recreio e consequente conquista. Depois de uma chuva de confettis, a banda voltou para, com Navarro sentado e Stephen Perkins num steel drum, recordar "Jane Says" e partir para uma vénia muito sentida ao público - português mas também espanhol, com direito a bandeiras e tudo - no final de um dos mais memoráveis concertos deste Optimus Alive'11.
02h00
À dupla
Duck Sauce
, que reúne Armand Van Helden e A-Track, coube a árdua tarefa de encerrar as atividades do palco principal na edição deste ano do Optimus Alive'11. Foi, portanto, a dançar até à exaustão que o público que por ali se manteve reagiu às sonoridades house e disco de um duo improvável que passou também de forma inesperada a fazer parte da história do verão de 2010. O tema "Barbra Streisand" marcou assim o final de mais uma edição do Optimus Alive. Para o ano há mais.
Textos:
Lia Pereira
e
Mário Rui Vieira
Fotos:
Rita Carmo/Espanta Espíritos