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Festival Med (Loulé): reportagem do 4º dia, com Mulatu Astatke [atualizado com fotogaleria] -

Festival Med (Loulé): reportagem do 4º dia, com Mulatu Astatke [atualizado com fotogaleria]

Festival louletano encerrou com chave de ouro: atuação memorável de Mulatu e grande enchente para a Balkan Brass Battle.



Apesar dos constrangimentos orçamentais que se traduziram num cartaz com maior recurso à prata da casa, o balanço da oitava edição do Festival MED só pode ser extremamente positivo. Como iniciativa de promoção de uma autarquia, o MED funciona na perfeição por obrigar as pessoas a interagirem diretamente com as ruas, com as estruturas e com os equipamentos da cidade: entra-se no recinto pelo mercado municipal ou por uma rua cujo primeiro cartão-de-visita é uma capela carregada de azulejos que tem as fundações de uma muralha árabe bem visíveis. É a história que nos dá as boas vindas ao MED. E é com promessas de futuro que nos despedimos.

O último dia do cartaz do MED deve também ter sido o mais concorrido. É difícil contabilizar o número de espectadores quando são muitos os palcos e recintos por onde se passeiam, mas hão de certamente ter sido uns largos milhares: a circulação nas ruas estreitas era mais lenta e as plateias pareciam ainda mais lotadas.

A grande enchente terá sido provavelmente a batalha cigana da Balkan Brass Battle que opôs a romena Fanfare Ciocarlia e a orquestra sérvia de Boban e Marko Markovic. A energia no recinto era mais do que visível e todos os espaços disponíveis foram preenchidos. Sucesso portanto.

O espírito algo circense da batalha, com duas dezenas de músicos a vestirem as camisolas de duas "equipas" num confronto cheio de energia e humor tinha o público ganho à partida. Estas fanfarras gozam de alguma popularidade entre uma certa geração etno-chique que também compareceu ao chamamento do MED.

O último dia tinha, no entanto, vários outros argumentos. O cartaz prometeu dilatar as horas (e cumpriu...) e ofereceu atuações memoráveis de nomes como Frankie Chavez ou Márcia, Mulatu Astatke ou Afrocubism.

Chavez confessou-nos algum nervosismo, mas a sua apresentação em modo solitário foi triunfal. Percebia-se no público que lotou completamente o recinto do Castelo que aquilo não era gente que estava ali por acaso. Quem viu Frankie Chavez quis ver.

E foi recompensado por isso: os blues do Delta cruzados com as referências musicais que parecem hoje acompanhar o público sintonizado com o surf lifestyle (Ben Harper ou Dave Matthews, por exemplo) fornecem a base para as canções de Chavez que se apresenta em modo totalmente descomprometido, mas inequivocamente entregue à sua missão de evangelizar com a guitarra. Eram várias aliás, juntando-se ao set up percussivo próprio de uma one man band . Chavez triunfou, pois claro.

Umas horas mais tarde, já no palco da Cerca, antes da memorável atuação de Mulatu Astatke, Frankie Chavez cruzou-se com Márcia e ambos se questionaram sobre o balanço das suas actuações: "Correu-te bem?" Ficaram, claro, aprovadíssimos nos "exames" a julgar pelas notas atribuídas pelo público em forma de aplausos.

O gesto de Márcia e de Frankie Chavez indicia até a existência de um espírito de geração que estes eventos só reforçam. Os dois não podiam ser mais diferentes: Frankie apresentou-se a solo, Márcia com o seu grupo, um expressou-se em inglês, outra em português. Um mais próximo dos blues, outra de uma insustentável leveza pop de rendilhados íntimos.

O que é certo é que ambas as abordagens funcionaram e Márcia conseguiu igualmente apresentar as suas canções para um público que não lhe regateou atenção.

E essa parece ser outra marca desta edição do MED - a atenção. A sensação que se fica ao abrir os ouvidos às conversas que nos rodeiam é a de que as pessoas sabem o que estão a ver e posicionam-se em frente de cada palco não por acidente, mas por determinada opção.

Foi assim também com Mulatu Astatke, ontem com uma prestação mais acústica do que aquela que há um par de anos levou a Lisboa para a apresentação do Africa.Cont - tirando os teclados, todos os outros instrumentos eram acústicos: vibrafone, bateria e percussões, saxofone, flauta e trompete, contrabaixo e, claro, o vibrafone de Mulatu que encheu de sons de cristal a noite louletana.

Havia público que sabia que Nas & Damian Marley samplaram "Yegelle Tezeta" (e se não sabiam ficaram a saber, porque Mulatu também o referiu), que sabia que a sua música foi usada em Broken Flowers de Jim Jarmusch (mais outra referência também do próprio Mulatu) e que conhece certamente o quarto volume da celebrada série Ethiopiques .

As melodias serviram de refrão e houve muitos que as entoaram. Houve até um toque de presença de jet set no espectáculo, com algumas caras famosas das revistas a dedicarem toda a atenção ao que se passava em palco. E o que se passou em palco mereceu, de facto, atenção: delicada tapeçaria de jazz etíope, com as melodias cópticas a darem-lhe o toque de distinção e a solene reverência espiritual dos músicos que parecem ter consciência de estarem a tocar uma cultura ancestral.

Nas ruas, entretanto, fundiam-se línguas e culturas, classes sociais e faixas etárias. Numa esquina à porta de um bar, uma senhora de provecta idade questionava uma amiga: "porque é que não nascemos 40 anos mais tarde? Já viste o que podíamos ter aproveitado?". Ainda vão a tempo, ao que parece.

A noite ainda se prolongou, como todos os fins de festa parecem prolongar-se: atuações do coletivo Afrocubism que se estende do Mali a Cuba mantiveram o impulso para a dança e as propostas da Bica e do Castelo, ambas com a palavra Groove no nome - Original Electro Groove e FunkyBoysGroove - também não esconderam ao que vinham, com a missão clara que fazerem queimar as últimas energias dos presentes. Como o filme, o MED também esteve aberto até de madrugada.

O conceito de músicas do mundo é um ângulo de marketing como outro qualquer. Se permite alinhar propostas como Seun Kuti, George Clinton, Muchachito Bombo Infierno, Batida ou Afrocubism e ainda temperar a selecção com actuações de gente como Os Golpes, Frankie Chavez, Sean Riley & The Slowriders ou Márcia, então pode dizer-se que é um conceito que faz sentido. As pessoas pagaram para entrar, quiseram ver os concertos, o que também prova que a vitalidade destas iniciativas não se mede apenas quando as portas estão abertas e as autarquias desresponsabilizam o público de fazer o que lhe compete: contribuir para o seu próprio futuro. Aplausos.

Texto: Rui Miguel Abreu
Fotos (em breve): Rolando Oliveira
Notícia escrita por RMA Domingo, 26 de Junho de 2011 às 16:03
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