Aloe Blacc na Aula Magna, Lisboa [texto + fotogaleria]
Estreia do norte-americano em Portugal correu da melhor forma. Leia a reportagem e veja as fotos do concerto.
A julgar pelos agradecimentos efusivos e pelo ar de surpresa nas caras dos músicos, a reação do público português - e até talvez a dimensão da sala que recebeu a estreia de Aloe Blacc no nosso país - deverá ter funcionado uns bons furos acima daquilo a que o autor de "I Need a Dollar" deve estar habituado nesta digressão. O que não deixa de configurar um ligeiro e até inexplicável fenómeno: Aloe vem de uma editora pequena, microscópica até se se tiverem em conta as estruturas que costumam gerar êxitos, e não vende propriamente muitos discos. Mas, como já dizia Frank Sinatra, "basta apenas uma canção para fazer a diferença". Essa canção, no caso de Aloe, chama-se, claro, "I Need a Dollar".
Antes de Aloe entrar em palco, os seus músicos secundaram Maya Jupiter, uma verdadeira cidadã do mundo, como ela própria fez questão de frisar: com ascendência mexicana e turca foi criada na Austrália e agora viaja pela Europa ao lado de um americano filho de pais panamianos. Maya é quase um reflexo exacto de Aloe no seu primeiro álbum: tem algumas inflexões de rap nas suas canções, um toque neo-soul na atitude e no som, usa o espanhol, junta pitadas de reggae e de ritmos latinos às suas canções. Tudo marcas que Aloe também já explorou. A sua atuação foi curta, mas ninguém ficou propriamente triste por causa disso. A estrela da noite era outra e quanto mais cedo entrasse em palco melhor, parecia pensar coletivamente o público. Maya não deixou grandes saudades quando abandonou o palco depois de dançar um pouco de samba do alto do que pareciam ser para aí uns três ou quatro metros, boa parte dos quais devidos aos sapatos que só a tornavam ainda mais esguia.
Depois de um pouco de Dire Straits no PA para a transição, Aloe Blacc lá entrou em palco, pouco passavam das 22h30, para júbilo da multidão que enchia completamente a sala. A multidão, aliás, podia muito bem ter sido aproveitada por uma agência de sondagens qualquer, porque parecia ser muito representativa da população portuguesa: público de todas as cores, muito equilibrado ao nível dos sexos e bastante diversificado tanto em termos de escalões etários como de classe social, pelo menos a julgar por uma análise superficial a alguns sinais exteriores de desafogo económico - mais presentes nuns casos, completamente ausentes noutros. Resumindo: aquela gente não veio toda do mesmo sítio e nem foi toda de metro para casa.
Acompanhado pelos Grand Scheme - uma formação com bateria, baixo, guitarra, teclados e uma económica secção de metais que dobrava em percussões - Aloe Blacc brilhou com intensidade: dançou como James Brown, fez a voz atingir notas altas em falsettos perfeitos que Michael Jackson não desdenharia, interagiu com o público e fez render até à última nota o belíssimo reportório de
Good Things
, o seu segundo e mais bem sucedido álbum. No concerto, nem sinal do seu lado de rapper, que aliás não desponta no registo mais recente. Elegante na sua camisa impecavelmente vincada e no colete apertado, Aloe também não estava ali para cuspir rimas em cima de batidas. Nada disso e fez questão de o anunciar logo no arranque da noite, perguntando ao público se estava pronto para uma noite de soul, provocando os presentes com algumas notas de "I Need a Dollar" e evocando os espíritos de James Brown e Marvin Gaye e a memória clássica de Al Green e Stevie Wonder. De facto, pela sua voz passaram as marcas de todos esses grandes nomes da soul, porque Aloe soa de facto como um talento natural, alguém que respira a tradição da soul por todos os poros, mesmo se a secundá-lo não estão nem os JBs, nem os Funk Brothers, nem sequer os Dap Kings. Pouco importa, porque é mesmo em Aloe que todas as atenções e todo o brilho se concentram.
Houve momentos no concerto em que parecia de facto ser o reverendo Al Green que estava em palco e se Aloe tivesse arriscado um "Aleluia" teria certamente ouvido de volta 1500 "Amens", tal a sua entrega e a devoção de quem o ouvia. De pé, a revelar entusiasmo acima da média, estavam sobretudo mulheres, sinal de que Aloe Blacc está rapidamente a caminhar para uma carreira mais exposta: se tudo lhe correr de feição, é provável que a Stones Throw não seja a sua casa por muito mais tempo.
O público respondeu sempre bem, mesmo nos momentos em que a toada blues marcou o seu canto, mais próximo do lamento clássico de Marvin e menos efusivo, menos festivo. Foi assim nas suas belíssimas versões de "Femme Fatale", dos Velvet Underground, e de "Billie Jean", de vocês sabem quem, já no encore. "Good Things" rodou praticamente na íntegra: de "Hey Brother" e "Miss Fortune" a "You Make Me Smile" (logo a abrir) e "Politician", tema bem apropriado para os tempos que correm. Mas a noite não deixou de ter as suas ironias: a quantidade de iPhones que filmaram a prestação algo anti-climáxica de "I Need a Dollar" era assinalável. (E, já que se aborda aqui a questão dos smartphones, é incrível como tanta gente numa plateia de uma sala de concertos a presenciar o enorme talento de Aloe Blacc faz ainda assim questão de estar noutro sítio qualquer, de olhos postos em ecrãs iluminados onde um F azul é marca dominante).
Depois do teasing inicial que quase fez crer por momentos que Aloe iria arrumar o seu maior trunfo logo na primeira cartada, a versão live de "I Need A Dollar" pareceu menos conseguida do que a maior parte das outras canções, talvez merecendo um pouco menos de entrega de quem por esta altura já deve temer que o velho mestre dos olhos azuis tivesse de facto razão e que uma carreira possa para sempre ficar assim marcada por uma canção apenas. Não que o público, esfusiante, tenha reparado. Era para ouvir aquelas notas de piano e para cantar "hey hey" que a maioria ali estava.
Depois da saída para o encore veio a confirmação definitiva de que o Cool Jazz Fest merece cada vez mais chamar-se Hot Soul Fest: além de Sharon Jones, Mayer Hawthorne e Charles Bradley, Aloe será outra presença, no dia 28 de Julho. Anunciado por Maya e reforçado pelo próprio Aloe no final de um concerto que certamente muitos dos presentes irão querer voltar a ver.
À saída, Aloe e os seus músicos fizeram aquilo que só os artistas americanos desta dimensão - aqueles que sabem que ainda têm muito para subir na carreira - parecem não se importar de fazer: assinaram autógrafos, conviveram com o público, eliminaram barreiras. O que faz sentido: mesmo não tendo arregaçado as mangas, Aloe não escondeu que é um operário da soul e que o que se vê em palco é o resultado de um sofisticado equilíbrio entre talento natural e trabalho aturado. Aquela empatia com o público, aquela dança, aquela colocação de voz, faz tudo parte de uma coreografia estudada por quem sabe que a música é o passaporte para o sucesso. "I Need a Dollar" não é só o comentário de um artista a um momento particular da história do globo. É também uma manifestação de alguém que tem sede, que tem fome de sucesso, mas que também não o quer atingir de qualquer maneira. Como James, Stevie, Marvin ou o bom reverendo, Aloe sabe que há um caminho clássico para lá chegar que implica menos brilho em clips da MTV e uma ou duas gotas de suor a mais em palco. Não houve assim muita gente a levantar o braço quando Aloe perguntou quem já tinha o álbum
Good Things
, mas serão certamente bem mais se o voltar a perguntar no próximo dia 28 de Julho.
Texto de:
Rui Miguel Abreu
Fotos de:
Rita Carmo/Espanta Espíritos