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Super Bock em Stock: reportagem da primeira noite [texto+fotogalerias] -
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Super Bock em Stock: reportagem da primeira noite [texto+fotogalerias]

Salas cheias, muita pontualidade e bons concertos de Kele Okereke, Owen Pallett e B Fachada & Sérgio Godinho: mais do que um festival, o Super Bock em Stock já é um ritual.

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A noite de sexta-feira ficou mais quente com uma Avenida da Liberdade a fervilhar de movimento. Entre a estação do Marquês de Pombal e o Maxime, foram muitos os que percorreram as várias salas de espetáculos de uma das artérias mais charmosas de Lisboa, na primeira noite da terceira edição do festival Super Bock em Stock.

O público - numeroso, informado, curioso - compareceu em peso aos principais concertos da noite, comprovando que, mais do que um festival, o Super Bock em Stock ganhou já o estatuto de um ritual, urbano e até "cool", que se cumpre anualmente.

Tiago Bettencourt abriu a noite com um concerto aprimorado no Espaço BES Arte e Finança (no Marquês), perante uma plateia bem composta que foi dispersando aos poucos para explorar outras paragens. Acompanhado por uma secção de metais, o ex-cantor dos Toranja agradeceu aos presentes por terem ido levantar as pulseiras a tempo para conseguir vê-lo e aproveitou ao máximo uma acústica que cedo se revelou uma surpresa bastante agradável.

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Saltando entre o piano e a guitarra, o músico foi apresentando as canções do mais recente Em Fuga em ambiente acolhedor que caiu bem em noite de temperaturas baixas. Das acusticidades bonitas de "Parece Que o Destino nos Quebrou", recheada de palavras seguras e bem pronunciadas, partiu para a emotiva "Espaço Impossível", movida a bateria forte, seguindo depois para a agitada "O Lobo". O cantor chamaria, pouco depois, "a querida amiga e convidada" Inês Castel-Branco para dois duetos enternecedores: "Tens de Largar a Mão", queimada a lume brando, com a voz doce e frágil da atriz a embalar a rouquidão do músico; e "Se Cuidas de Mim", que com a ajuda dos sopros se torna ainda mais intimista. A terminar, um "Só Mais Uma Volta" em moda agropop, um "Chocámos Tu e Eu" a aumentar o volume e, a terminar, uma versão que "até não correu mal" (como nos ensaios) de "Paint it Black", dos Rolling Stones.

Na outra ponta da avenida, os Pinto Ferreira tentavam atrair apoiantes à sala do Cabaret Maxime, mas o espaço manteve-se bastante vazio. "Amar-te Até à Morte", a balada "Que Pena" (que tem "provavelmente a letra mais depressiva de sempre") e "Elogio da Estupidez" foram algumas das canções apresentadas pelo trio adepto de melodias simples mas simpáticas, com interferências de cavaquinho e acordeão aqui e ali.

Jorge Palma ladra, mia e uiva, talvez para compensar o facto de, na estação do Marquês, poucos conseguirem vê-lo. O concerto no metropolitano (a piada do artista underground faz-se sozinha, embora não se aplique) começa com uma pontualidade sublinhada pelo relógio da estação, por cima da cabeça do artista, mas a visibilidade para o "palco" não é a melhor - e também dispensávamos as infiltrações de água a pingar do teto. Mas libertemo-nos do xaile fatalista e bem nacional: ao início da noite, a voz de Jorge Palma soa quente e o calor humano entre os melómanos que, com afinco, sobem e descem a avenida é reconfortante. Há mesmo quem acompanhe Palma (sozinho com guitarra acústica) nos coros de "Lobo Malvado", "O Bairro do Amor" ou "Voo Nocturno", quem se arrependa por não ter trazido uma garrafa para partilhar com o amigo e quem celebre, afinadamente, a deixa "eu sei que tu me compreendes bem".

Descendo a avenida no meio de outros espetadores às voltas com as jigajogas dos semáforos, encontramos, no palco do Tivoli, Owen Pallett , um corajoso homem só, na singela companhia de violino, pedais, teclados e uns quantos amplificadores. Sentada e lotada, a plateia sorve as suas melodias ora épicas, ora intimistas, com a devoção que o público nacional costuma reservar para os músicos que, na sua obra, cruzam sensibilidades pop e menos pop. Dadas as matérias primas, a comparação com Andrew Bird torna-se óbvia, mas a música de Pallett é mais nervosa e sexual, como se pressente em "Don't Stop", do novo EP, ou "This Is The Dream of Win and Régine", obviamente inspirada pelos conterrâneos Arcade Fire, com quem vem trabalhando.

Uma das ideias por detrás do conceito de Super Bock Super Rock, inspirado no norte-americano South By Southwest, é o saltitar entre salas e concertos, mas Owen Pallett tem em Lisboa um público fiel que se reflete numa baixa dança de cadeiras. Enquanto, atrás de nós, dois amigos fazem planos para amanhã ("A filha do Sting chama-se como?"), Pallett, uma figura franzina (mais tarde elogiada por Kele Okereke) mas afável, vai aquecendo os corações dos presentes. "Nunca vivi em Lisboa, mas escrevi cá um álbum", afirma, antes de "Midnight Directives", a canção que abre Heartland . Quem a ouvisse sem conhecer Lisboa e tentasse adivinhar, diria que se trata de uma cidade sonhadora, com o seu quê de sinistro. Talvez acertasse.

Ao atravessar a avenida para o São Jorge, damos de caras com numerosos membros da Kumpania Algazarra - metade da comitiva dentro, metade fora de um autocarro que sobe e desce a avenida com espetadores, fazem uma festa aciganada, para júbilo de transeuntes que registam a pândega com o telemóvel.

"It's warmer here", comenta uma espetadora ao entrar na sala 1 do São Jorge. Além de mais quente, o ambiente era de alguma excitação, na contagem decrescente para o encontro de B Fachada e Sérgio Godinho . Já agora: nada contra a informalidade entre o público, mas falar mais alto que os artistas (mesmo sem microfone), combinando saídas e conversando ao telemóvel durante o espetáculo que outros querem ouvir, é algo a que, no tempo de alguns pais e mães, se chamaria "má educação".

Dono de uma combinação aparentemente simples de atributos que lhe poderão garantir um sucesso cada vez mais transversal, desde a crítica rendida à sua folque erudita até aos publicitários embeiçados pela sua voz, B Fachada tem uma perícia de alquimista com as palavras, um carisma que nos leva a pôr os olhos em palco e um talento especial para as soluções (melódias, rítmicas) inesperadas. Está também a cantar de forma cada vez mais limpa de maneirismos e fê-lo sozinho (isto é, sem Sérgio Godinho) durante a primeira fase do concerto. Nela passou pelo novo B Fachada é Pra Meninos , de música infantil mas não infantilóide capaz de captar na perfeição a melancolia do regresso às aulas ("Primeiro Dia", em disco e ontem com Francisca Cortesão, aka Minta) ou a expectativa da chegada de um irmão ("Barrigão", em disco com Lula Pena mas ontem sem ela).

Um cantor para todas as estações, B Fachada passou também pelo seu "êxito" "Estar à Espera ou Procurar" (atualmente "a rodar" no genérico final da série da RTP Voo Directo), pela quadra das festas ("Dia de Natal") e pelo seu belo EP de verão, Há Festa na Moradia . "Vamos tocar uma espécie de interlúdio para aquilo que todos vieram ver: os discos do próprio", apresentou antes de "Os Discos do Sérgio Godinho", a música que abriu caminho à chegada do "próprio". "Ainda por cima faz-se modesto", respondeu Godinho, que em 2011 tem disco novo mas ontem passou por "Lisboa que Amanhece", com Fachada nos teclados, e emprestou "Etelvina" ao "novato". Num dos melhores concertos da noite, Godinho deu ainda voz (com a ajuda de uma cábula) a "Conselhos de Moral", do novo B Fachada é Pra Meninos , e recordou "O Elixir da Eterna Juventude" num encontro - de gerações e vocações - assaz feliz.

"Agora é que eu vou ver quem é que fica", brincou Fachada, após a partida de Godinho. Mas a verdade é que o seu concerto foi dos mais concorridos desta primeira jornada do Super Bock em Stock, e muitos ficaram mesmo à porta da sala 1 do São Jorge. Recusando-se a repescar a "relíquia" "Zé" ("Quando tocava essa tinha cinco pessoas a ver-me"), Bernardo, que tocou com Mariana na bateria e Martim no contrabaixo, despediu-se então com "Tempo para Cantar".

Comparada a Fever Ray e Bat For Lashes, Zola Jesus apresenta-se em palco com uma túnica negra e de capuz, que lhe cobre a cara. Lentamente, retira a "máscara" para desvendar o cabelo loiro desgrenhado e a voz que, como tantas moças emergentes da pop, tem o seu quê de Kate Bush (apesar de bem mais grave). Com Nika Danilova, verdadeiro nome de Zola Jesus, está apenas um colega na caixa de ritmos e nos teclados; mais do que a musicalidade de temas como "Night", "Sea Talk" (a canção mais conhecida, e mais desanuviada também) ou "Poor Animal", o que impressiona aqui é um certo ambiente opressivo e cinemático. Sempre semi-curvada sobre si mesma, Zola Jesus percorre o palco com pezinhos de lã (e botas bicudas), tocando nas mãos do fã que, na fila da frente, está claramente a viver a noite da sua vida. É a convicção com que conduz este teatrinho minimalista - e, para quem não nutrir devoção pela sua música, saturante - que acaba por se destacar num concerto com mais desistências, entre os espectadores, que o de Fachada/Godinho.

A norte-americana não parece, porém, incomodada: numa das poucas interpelações ao público, diz estar encantada com esta última noite de uma digressão de três meses e garante que, agora que conhece Portugal, já não quer mais nada ("Vou mudar-me para aqui!", exclama a certo ponto. Deve ser disto que se fala quando se escreve que a população portuguesa cresce graças à imigração). Para mostrar o seu entusiasmo e gratidão, a cantora, que a espaços soa a uma Florence Welch transportada para o período gótico dos Cure, chega mesmo a irromper plateia adentro, tentando concretizar, de forma algo desajeitada, uma apoetose que nunca foi além das primeiras filas.

O londrino Kele Okereke incendiou a sala do Tivoli com um concerto explosivo. Liberto dos constrangimentos da liderança de uma banda, o cantor britânico mostra-se em palco hoje com uma postura mais descontraída, sem se esconder por trás das guitarras. Com um álbum de estreia que se atira de cabeça para sonoridades eletrónicas, o músico arrancou o público (que preenchia a sala) das cadeiras aos primeiros segundos do concerto e nunca mais o deixou sentar.

De calças de ganga, camisola desportiva (que rapidamente daria lugar a uma t-shirt) e boné, Okereke deu início ao concerto com os espasmos militares de "Walk Tall". Na hora que se seguiu, o músico destilou sedução e simpatia, cantando no meio do público, dançando descontroladamente e apresentando as canções da sua nova vida musical (fazendo também algumas incursões por temas dos Bloc Party).

Os ritmos contagiantes de "On the Lam", a honestidade desarmante de "Everything You Wanted" (canção com "final feliz") e a pirotecnia de "Tenderoni" podem ter levado o público ao delírio, mas o medley "dedicado aos fãs mais antigos" que juntou "Blue Light", "The Prayer" e "One More Chance", do seu repertório com os Bloc Party, deixou tudo a saltar e a dançar sem freio.

"Estão a gostar do espetáculo? Então mostrem-me as vossas mãos!" desafiou Kele antes de se atirar à diversão de "Tenderoni". "Eu sabia que vocês gostavam de festa, Lisboa. Estava certo ou não?", rematou no final. Depois de elogiar a sala, dedicou a música que se seguiu, "Rise" ao "guarda Carlos, que há uma hora não me queria deixar entrar no edifício". Em registo intimista, prosseguiu por um sussurrado "All the Things I Could Never Say", com batida abafada e melodia em crescendo, e, antes de sair de palco, saltou para os ritmos infernais de "Flux", novo regresso aos Bloc Party.

O curto encore da praxe ficaria marcado por uma versão de "Goodbye Horses" - uma das canções favoritas de Kele, cantada nos anos 80 por Q Lazzarus - dedicada a Owen Pallett, que horas antes pisara aquele mesmo palco, e a terminar em grande um "This Modern Love" quase irreconhecível. Palco e público pegaram fogo no Tivoli esta noite, mas Kele deixou no ar que o regresso a Portugal poderá estar para breve. "Muito obrigado Lisboa. Espero que se tenham divertido tanto quanto nós".

A terminar a noite, uma das bandas mais aguardadas da jornada - e mais badaladas este ano, no circuito indie - levou a peito o conceito de garage rock. Não que, pela música dos Wavves , não se passeiem também o grunge e o punk, mas o espaço em que o concerto decorreu convida ao trocadilho. Localizada no parque de estacionamento do Marquês, a Garagem Vodafone, que no Sábado acolhe o concerto dos Linda Martini, não é dos locais mais aprazíveis em que já estivemos. Se lá fora fazia frio, na garagem o calor era sufocante, o som cheio de eco (tornando impercetíveis as declarações de Nathan Williams) e o povo pareceu encarar o breve concerto dos Wavves mais como um "after hours" para beber um copo e pôr a conversa em dia. A exceção foram, naturalmente, os residentes das filas da frente, em perfeito delírio com as pequenas granadas pop-punk de dois, três minutos que os californianos iam arremessando, umas a seguir às outras. São canções fugazes, prenhas de eletricidade e banhadas a coros melódicos mas despretensiosos, que não levaram o concerto além dos 45 minutos de duração. "King of the Beach", "So Bored" e "Post Acid" marcaram efusiva presença, a adrenalina evaporou-se na garagem claustrofóbica e sábado, 4 de setembro, há mais, com Janelle Monáe e Linda Martini na lista de prioridades de muitos espetadores.

Texto de: Lia Pereira e Mário Rui Vieira
Fotos de: Rita Carmo/Espanta Espíritos
Artistas de A a Z    ¤   B Fachada
Notícia escrita por Blitz Sábado, 4 de Dezembro de 2010 às 4:15
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