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Há uns meses atrás, o nosso amigo
DWilde
publicou um artigo que versava sobre as 50
maiores bandas de sempre do Top do Reino Unido
e vários
Users
, eu incluído, manifestaram a sua estupefacção perante uma grave omissão dessa lista: e os
The Who
?! Sim, eles não constavam dessa lista, apesar de serem sem dúvida um dos mais carismáticos símbolos da música de terras de Sua Majestade. O pior de tudo, após pesquisar, foi descobrir que afinal, bem que aquela lista podia estar correcta...
A verdade é que apesar do peso do seu nome, a carreira dos Who nas tabelas Britânicas foi muito modesta. Como fãs e ouvintes da música de outras eras, normalmente assumimos as aventuras e desventuras dos nossos artistas favoritos como fazendo parte de algo extraordinário o que até é correcto, na medida em que apesar de todas as tropelias, conseguiram obter sucesso e reconhecimento, o que em última análise permite que tantos anos depois, os seus nomes e as suas obras ainda sejam relevantes, como é o caso dos Who.
Os Who firmaram o seu nome numa era em que o mercado era regulado pelos
Singles
e curiosamente, o primeiro,
"I Can´t Explain"
, buscava inspiração nos
The Kinks
e
nunca me cansarei de afirmar que os Who e os Kinks não tiveram todo o reconhecimento que mereciam!
Digam-me lá se um grito revolucionario como a
"My Generation"
é menos simbólico e representativo do que uma
"Satisfaction"
ou uma
"Love Me Do"
? (sem ofensa aos Stones e aos Beatles...)
A reputação da banda foi adquirida nos palcos, sendo apresentada como "Perigosa e Ruidosa":
Roger Daltrey
, o vocalista esforçado,
Pete Townshend
, o guitarrista e génio louco e torturado da banda,
Keith Moon
, lunático profissional e Baterista incapaz de fazer apenas um compasso simples e
John Entwistle
, baixista, Guarda-roupa estranho e pilar racional da banda.
É aqui que obrigatoriamente tenho de mencionar uma personagem do mundo da música que hoje raramente é mencionada, uma vez que o seu trabalho hoje é entregue a verdadeiras "empresas": o
Manager
. Naquele tempo, era um trabalho de
Free Lancer
e quem apostava numa banda, muitas vezes, além do seu dinheiro, colocava também o seu pescoço no prego!
Kit Lambert
foi o homem que apostou nos The Who e teve um trabalho muito difícil.
Pete Townshend, além do seu talento para compor hinos rock com 3 minutos de duração, era conhecido pelo seu mau feitio e pelos seus complexos de inferioridade. Hoje sabemos que reagiu com "ciúme" á chegada do fenómeno
JImi Hendrix
a Inglaterra, tendo-se unido ao
Eric Clapton
(de quem nem era especial amigo), de forma a "defender" o seu lugar no pódium das estrelas Britânicas e que também recebeu com desdém a impressionante estreia dos
King Crimson
. Como forma de "disfarçar" a sua "desengraçada" aparência, Townshend decidiu canalizar a sua energia e o clímax das actuações da sua banda na destruição do seu instrumento. Essa decisão foi aplaudida pelo (segundo algumas fontes, de facto) louco Moon, que destruía o seu
Drum Kit
estrondosamente, algumas vezes antes mesmo do final do
Show
. Daltrey acabou também por destruir os seus microfones e apenas o calmo Entwistle mantinha os seus instrumentos em segurança.
Era isto que as audiências queriam de um concerto "Normal" dos The Who -
Rock furioso expelido por um PA com um volume exageradíssimo e a estrondosa destruição do equipamento
- todas as noites. Esta exigência, aliada á fraca performance da sua música nas tabelas de vendas e os diversos processos judiciais derivados do vandalismo em hotéis e ofensas á autoridade, transformou os Who numa empresa á beira da ruína.
A introdução do conceito de álbum através dos omnipresentes
Beatles
também não correu de forma auspiciosa aos Who (a nível comercial).
"A Quick One" (1966
) e
"The Who
Sell Out" (1967)
foram exercícios interessantes, o primeiro com uma aproximação ao conceito de ópera no tema título de 9 minutos
"A Quick One (While He´s Away)
e o segundo um álbum conceitual acerca do consumismo. Mas já não havia mais espaço de manobra e uma coisa era certa: o futuro da banda estava nas mãos do líder criativo Townshend. O próximo trabalho dos Who tinha forçosamente de ser um sucesso. Mas a ideia que o músico tinha em mente não trouxe sossego ao
Manager
Kit Lambert.
Ele queria fazer uma Ópera Rock!!!
O processo foi bastante longo e daria para redigir um artigo bastante extenso. Importa saber que Townshend buscava, para além das drogas, inspiração e orientação espiritual num "iluminado" Indiano de nome
Meher Baba
, que entre outras particularidades era famoso pelo voto de silêncio que mantinha há mais de uma década. Basta recordar que uma orientação semelhante não surtiu grandes resultados nos Beatles nessa mesma altura...
É sabido que o conceito de Ópera Rock, apesar de ter conhecido o seu maior expoente com os Who, é na verdade atribuído, inclusive pelo próprio Townshend, ao álbum
"S.F
Sorrow" (1968)
dos
Pretty Things
. Porém, o fraco sucesso desse álbum aumentou as reticências e os avanços e recuos no "cozinhado" que o líder dos Who estava a preparar: Tratava-se de uma Ópera no verdadeiro sentido da palavra, com uma abertura, um enredo comum a toda a obra, mas com uma particularidade: Destinava-se a ser tocada por uma banda de Rock e tinha de ser exequível em palco. Com muitos atrasos e adiamentos,
"Tommy"
viu a luz do dia a 23 de Maio de 1968 no Reino Unido e uma semana antes nos EUA.
Muito resumidamente é esta a sua história: o Capitão
Walker
, dado como morto na 1ºa Guerra Mundial, regressa a casa onde encontra a sua esposa com um novo Homem. Dá-se um confronto no qual o amante é morto. O pequeno
Tommy
, que assiste á cena, entra em choque, e com a pressão dos pais para que esquecesse o que vira, fica cego, surdo e mudo. Entre várias peripécias que envolvem médicos, torturas, prostitutas, drogas, pedofilia,
Pinball
e um campo de férias, Tommy acaba por tornar-se no líder de um culto. Uma história bastante louca e no entanto, brilhante. Mais tarde. "Tommy" chegaria aos cinemas e aos teatros.
O álbum foi efectivamente um sucesso e permitiu aos Who alcançarem a fama que os seus compatriotas
Rolling Stones
e os ainda recém-chegados
Led Zeppelin
já tinham alcançado. Uma das datas mais emblemáticas da rota Americana foi mesmo a sua passagem pelo festival
Woodstock
, que, na versão dos Who, foi tudo menos paz e amor, pelo menos, no que respeitou a negócios. Foi um caos a nível de organização e os Who apenas aceitaram actuar mediante o pré pagamento em dinheiro vivo, uma vez que Lambert suspeitava do incumprimento do contrato. Como todos os acessos estavam entupidos, foi necessário conduzir um oficial de contas por helicóptero para levantar o dinheiro e só assim a banda fez uma actuação histórica, tocando "Tommy" na íntegra, mas recordando que foi uma actuação para esquecer e que se o sonho Americano consistia em "Viver a chafurdar na Lama", que os Hippies fossem muito felizes, mas preferiam a placidez da sua Inglaterra natal, onde pouco tempo depois, brilhariam no festival
Isle Of Wight
.
"Tommy", apesar do seu sucesso, acabou por tornar-se uma
Nemesis
para a banda. A dada altura, a imprensa e as pessoas comuns chegavam a chamar a banda de
Tommy
! Townshend chegou mesmo a declarar que nunca mais tocariam a obra em palco, mas os compromissos financeiros acabaram por falar mais alto...
Numa das cenas iniciais do meu filme favorito,
"Almost Famous"
, um miúdo que fica com os discos da sua irmã mais velha, que acabara de fugir de casa e do sufoco da sua mãe, ao abrir o vinil de "Tommy", viu um bilhete deixado pela irmã que dizia o seguinte:
Ouve "Tommy" com uma vela a arder e verás todo o teu futuro
. Tratava-se certamente de uma profecia bastante "nublada", mas aquele miúdo tornar-se-ia num famoso repórter de Rock,
Cameron Crowe
, que chegaria mesmo a editor da mítica
Rolling Stone
!
Provavelmente, o meu futuro não passará por aí, talvez por não ter ouvido "Tommy" pela primeira vez á luz de uma vela, mas lembro-me perfeitamente desse momento. Foi há já pelo menos 12 anos, no Natal, essa festa que tem o condão de exacerbar a nossa felicidade e de aprofundar a nossa tristeza. Eu estava triste, provavelmente devido a um amor não correspondido e a minha consolação foi o presente que ofereci a mim próprio. Nunca tinha feito isto antes e juro que falo a verdade. Ouvi "Tommy" e ao mesmo tempo acompanhei as letras do
Booklet
. O disco esteve para chamar-se
"Amazing Journey"
e de facto, durante 90 minutos, viajei para longe dos tormentos da minha alma, embalado pela história inacreditável e fantástica de um miúdo cego, surdo e mudo que era campeão de máquinas de Pinball.
Caros amigos, após "Tommy", os Who continuaram a fazer obras-primas, como o grande
"Who´s Next" (1971)
, o disco de
"Wont Get Fooled Again"
,
"Baba O' Riley"
e
"Behind Blue Eyes"
e claro, outra Ópera Rock, a Bíblia do movimento
Mod
,
"Quadrophenia" (1973)
, que em princípio os Who levarão novamente aos palcos em 2011 e macacos me mordam se eu volto a cometer o crime de perder a oportunidade única de vê-los em palco.
O único senão será o grave problema de audição que afecta o grande Pete Townshend.
Não admira. É apenas o resultado de mais de 40 anos de Rock no volume máximo!
http://www.youtube.com/watch?v=-GE8nR-5kL4 -
"Pinball Wizzard" Woodstock;
http://www.youtube.com/watch?v=m7AHblQ3_oM -
"See Me, Feel Me" Woodstock;
http://www.youtube.com/watch?v=XwLa2IhhxyM -
"Sparks" Woodstock
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Rebentar guitarras em palco é sobrevalorizado!
Eu nunca fui, nem sou um fã de The Who ou um grande conhecedor, mas sei o essencial para reconhecer o seu mérito e a lacuna que foi a não inclusão naquela lista. Eles e os Iron Maiden.
Mas isso vale o que vale, lol.
Relativamente ao artigo, fiquei a saber mais e talvez vá tentar sacar umas coisinhas! ;)
Abraço.
São sem dúvida das minhas banda preferidas, e uma cena deliciante de ver foi o concerto tributo que lhes fizeram.
Não sei se é um choque, mas o que mais gosto neles é o John Entwistle, que ao lado do John Wetton e do Chris Squire continua a fazer parte da minha trindade de baixistas rock. E devo-te dizer que o que mais gosto neles nem é a técnica, mas sim o som deles! Estes são os baixistas que catapultaram o lugar do baixo para uma posição de referência no que toca a definir o som de uma banda. Tira o Rickenbacker das mãos do Chris Squire e os Yes deixam de ser os mesmos. Estes foram os baixistas que me fizeram dar mais importância ao som do instrumento do que à quantidade de notas que tocam, apesar de todos eles terem uma técnica espantosa!
E se o Wetton e o Squire nos dias de hoje deixam a idade transparecer no que tocam e no som que têm, então basta olhar para o último concerto do Entwistle e ouvir o som absolutamente destrutivo que ele tem. Nunca diria que uma pessoa com um som daqueles estaria tão perto dos 60 anos de idade!
E nem posso falar do Keith Moon. Um baterista frenético é meio caminho andado para eu gostar de uma banda! Acho que mesmo que não tivesse morrido tão cedo o homem não iria aguentar muito mais tempo a tocar daquela forma. Provavelmente era gajo para se detonar a meio de um solo de bateria! Sem dúvida a minha secção rítmica favorita do rock clássico.
Mas um dia ainda hei de te contar o porquê de eu e a maior parte das bandas clássicas não nos darmos muito bem. É uma história muito dramática, cheia de reviravoltas, traições e revelações, muito à moda das telenovelas mexicanas!
Grande abraço!
Uma das bandas de eleição do Sr. Vedder sempre foram os The Who, razão pela qual os Pearl Jam sempre tocaram muitas versões deles. Como sempre gostei dessas versões, conhecer os originais era apenas o passo obrigatório a dar. E eis que um novo mundo se foi revelado! Lol!
Tommy é sem dúvida uma obra prima, que continuo a escutar com algum regularidade.
Os The Who! são o exemplo do que o Rock dos nossos dias devia ser! Não interessava ser bonito. Bastava ser um mestre do seu instrumento e destruir tudo e todos no fim de cada concerto! hahaha
Parabéns por mais um excelente artigo! Eles que venham que todos gostam! hehe
Em relação aos The Who sou fã incondicional, e concordo: a "My Generation" é sem dúvida um hino incontornável do Rock. Aliás, para mim basta ver actuações deles (como em Woodstock e em Isle of Wight) para ficar contagiada pelo espírito e perceber cada vez mais o quão épicos eles são.
Para além de muitas músicas soltas espalhadas pela discografia, penso que seja seguro dizer que tenho um gosto especial pelo "The Who Sell Out" e pelo "Who's Next".
Macacos me mordam também a mim se não for ao concerto destes grandes, se cá vierem!
Cumps :)
Naquela altura partir guitarras num concerto era algo fascinante.
Um baterista como o Keith Moon naquela altura era incrivel, enquanto o Ringo Star e outros da epoca tocavam bateria calmamente com os braços cruzados, o Keith Moon dentro do Rock faziam coisas incriveis com uma bateria, descontrolava-se a tocar bateria mas sempre excelentemente bem.
E claro aqueles peixes na bateria transparente eram fascinantes, ainda hoje muita gente se lembra disso.
Eles revolucionaram dentro do possivel o ROCK e obrigado pelo topico porco espinho que me fez dizer tudo o que havia para dizer desta incrivel banda.
Força The Who, ou o que resta dos The Who.
Os seus músicos estão entre os melhores de sempre, sendo a secção ritmica, com John Entwistle no baixo e Keith Moon na bateria, um caso à parte, em que enchiam as músicas, parecendo estar sempre a solar, deixando liberdade ao guitarrista (e mentor da banda, Pete Towshend) e vocalista (Roger Daltrey) para darem o seu melhor em palco.
Álbuns como "Tommy" e "Quadrophenia" (duas óperas-rock), "Who´s Next" ou "Live at Leeds", são absolutamente fundamentais em qualquer discografia essencial sobre a história do rock.
A sua influência vai desde o hard-rock, ao punk ao mesmo ao grunge, tendo músicos como os Sex Pistols, Pearl Jam, Van Halen, Brian Adams, etc, tocado as suas músicas em vários concertos e álbuns.
São portanto, na minha opinião, uma das melhores e mais influentes bandas de rock de todos os tempos.