|
Ele é frequentemente apelidado de "Camaleão", mas essa é uma comparação que acaba por não encaixar na perfeição. O Camaleão, o verdadeiro, é conhecido pela sua impressionante capacidade de efectivamente mudar de cor (graças á dilatação e contracção de umas células pigmentadas que possui na sua pele) e fá-lo para camuflar-se com o meio que o envolve, de modo a defender-se de possíveis predadores e também, segundo os Cientistas, para comunicar com outros indivíduos da mesma espécie e também para regular a sua temperatura corporal.
David Bowie
foi sem dúvida um artista que ao longo da sua carreira "vestiu" várias peles e cores, acompanhando e adaptando-se às várias realidades e mudanças da sua Arte, mas nunca numa atitude de defesa ou de camuflagem. A verdade é esta: Bowie é um ícone e durante a maior parte da sua carreira, não foi um seguidor. Foi ele quem ditou a moda a seguir.
Porém, em 1967, bem no início da sua carreira, a indústria musical e a imprensa não viam nele uma possível
Next Big Thing
, situação que se manteria teimosamente durante algum tempo, mesmo perante uma obra que á luz dos nossos dias é de uma qualidade assombrosa. O seu primeiro êxito, lançado em 1969, inspirado na chegada do homem á Lua, relatava a aventura espacial do
Major Tom
. Chamava-se
"Space Oddity"
. Uma canção estranha, bela e definitivamente de outro mundo. Na altura, teve apenas uma modesta passagem pelo top, chegando a nº 5 (poucos anos depois, chegaria a nº 1!). O seu primeiro álbum, homónimo, não teve sucesso, sucedendo-se o mesmo com o álbum seguinte
"The Man Who Sold The World" (1970)
, canção que todos bem recordamos na versão
Unplugged
dos
Nirvana
. Mas não tardaria muito para que as coisas começassem a acontecer no mundo do Camaleão.
Bowie trabalhou com muita gente durante a sua longa carreira, mas a "química" a sério aconteceu com o jovem guitarrista
Mick Ronson
e com o músico e produtor
Toni
Visconti
, com quem começou a trabalhar a partir deste disco. No final de 1971, um disco chamado
"Hunky Dory"
chegava às lojas e, para não variar, falhava também um lugar nos topes.
Esta situação, infelizmente, será hoje muito rara, mas naquela altura, a indústria musical coçava a cabeça quando o assunto era o artista chamado David Bowie: Em primeiro lugar, não havia um termo de comparação que servisse como escala de medição da sua qualidade. Apesar de Britânico, o Azimute de Bowie apontava para muito longe, para os
Velvet
Underground
e para a
Factory
de
Andy Warhol
; o seu aspecto era demasiado bizarro. Para além do pormenor dos olhos com cores diferentes, a sua aparência andrógina parecia abolir em definitivo a linha aparentemente firme que separava os sexos.
Mas nada disso deveria ter prejudicado o sucesso de "Hunky Dory" e a razão é clara como a água: este é o disco de
"Changes"
,
"Life On Mars"
e
"Oh You Pretty Things"
! Para ter sucesso, Bowie teria de deixar de ser Bowie e reinventar-se, "vestindo" uma nova "Pele". Dentro em breve, passaria a chamar-se
Ziggy Stardust
e a sua banda seriam os
Spiders from Mars
.
O epicentro de tudo foi uma aparição no programa televisivo Top of the Pops, naquele que ainda hoje é reconhecido como um dos mais famosos momentos da TV, no que á música diz respeito. Bowie, ou melhor, Ziggy, apresentou o novo Single
"Starman"
e aqueles breves minutos geraram uma verdadeira tempestade e muito rapidamente, sucederia algo que até há alguns anos atrás, era exclusivo dos
Beatles
. Agora era a vez da
Bowie Mania
.
Para as meninas, era muito fácil gostarem de Ziggy. Para os rapazes, o seu aspecto efeminado e ambíguo era difícil de digerir, mas aquela atitude transgressora e a descoberta da música bem apelativa que as rádios até então tinham vergonha de divulgar, acabou por vencer. Toda a juventude gostava de Bowie e apenas os restantes músicos Britânicos olhavam com receio e desconfiança para aquela aberração vinda, não se sabia bem de onde...
Em 1972, poucos meses após "Hunky Dore", era chegada a altura de um dos mais importantes capítulos da História do Rock: o álbum
"The Rise and Fall of Ziggy Stardust and The Spiders From Mars"
. Sem ter sido premeditado, acabou por tornar-se numa história conceptual acerca da vida de uma
Rock Star
de um mundo futuro e de repente, toda a gente queria ser essa estrela. Foi este o disco de
"Starman"
,
"Ziggy Stardust"
,
"Moonage Daydream"
,
"Suffragette
City"
e em suma, foi um disco de Rock sem concessões, perfeito para ser ouvido no volume máximo e para patrocinar a hoje célebre ascensão de Ziggy/Bowie aos palcos.
De arrasto, toda a obra editada anteriormente foi avidamente comprada e num ápice, Bowie invadiu definitivamente os Tops. Podia escrever parágrafos e parágrafos acerca da personagem Ziggy Stardust, mas é melhor parar. Apenas vos aconselho vivamente o visionamento do
filme/concerto "Ziggy Stardust
and The Spiders from Mars
", com imagens do último concerto da Tour, no Hanmmersmith Odeon.
A importância desta personagem?
Sem a sua imagem, provavelmente não havia
Punk
nem um modelo para os Góticos usarem (trocando apenas as cores pelo negro e pelos tons de cinzento) e para os mais distraídos, não haveria o melhor
Marylin Manson
, o de
"Mechanical Animals"
. Quando "matou" Ziggy Stardust no palco do Hammersmith, morria também o meu Bowie favorito.
Os passos seguintes foram dados já sob os holofotes da fama:
"Aladdin Sane" (1973)
e
"Diamond Dogs" (1974)
, não foram apenas bons discos como também elevaram ainda mais o nome e a imagem de Bowie. Fazendo jus ao seu génio inventivo e em constante mutação, foi mudando o seu som, deixando o Rock duro e puro de lado e também a colaboração com Mick Ronson. O reinado do
Glam
já não lhe interessava e
"Young Americans" (1975)
e principalmente
"Station to Station" (1976)
,
com o estranho tema título e o
crooner
exótico e
belo chamado
"Wild is the Wind"
apresentavam um artista diferente, mais sério e experimental. Por esta altura, já tinha salvo a carreira dos
Mott The Hoople
de
Ian Hunter
, dando-lhes o seu êxito
"All the Young Dudes"
e também a vida do seu
mais que amigo
Iggy
Pop
, não só o artista, mas também o Homem. Seguia-se a famosa fase Berlinense.
Para a maioria dos entendidos, a mudança de Bowie e Iggy para a louca e decadente Berlim coincide com a melhor música por ele criada. Apesar de eu ser fã da personagem Ziggy Stardust, não consigo ficar indiferente ao clássico
"Heroes"
e ao estranho
"Low"
. Ninguém podia antever um Bowie imerso no som progressivo alemão, conhecido como
Krautrock
, mas foi mesmo essa a via que ele seguiu, introduzindo inclusive faixas instrumentais, com a ajuda do seu amigo e produtor
Toni Visconti
, do mestre dos sintetizadores
Brian Eno (Roxy Music)
e de
Robert Fripp (King Crimson)
, cujas estranhas paisagens de guitarra se ouvem no mais emblemático hino de Bowie,
"Heroes"
.
"lodger"(1979)
, com a participação do guitarrista
Andrew
Belew
(mais tarde nos King Crimson) seria o último da famosa "Trilogia de Berlim".
"Scary Monsters"
(1980)
, o disco de
"Ashes to Ashes"
iniciaria de uma forma auspiciosa uma década que veria Bowie transformar-se numa Pop Star. Apesar do êxito de temas como
"Let´s Dance"
,
"China Girl"
ou
"Fame"
, Bowie não se livraria da maldição que ditava que as estrelas nascidas nos anos 70 não se passeariam airosamente pela década de 80 sem antes abdicarem do seu brilho inicial. Este Bowie não era o mesmo, tanto na imagem (a "tia" que aparece no Live Aid), na Voz (agora um barítono menos flexível) como na sua música. O camaleão vestia então uma pele mais confortável e começava a agir mais como o réptil, trajando a rigor para a ocasião e adaptando-se placidamente á situação. Mesmo quando se juntava a músicos como o tristemente falecido
Stevie Ray Vaughan
ou ao mestre do Jazz
Pat Metheny
, as suas contribuições diluíam-se totalmente no meio dos arranjos típicos da época.
Hoje, á distância, sabemos perfeitamente reconhecer que os melhores momentos musicais dos anos oitenta encontram-se exactamente na obra dos artistas que nasceram nessa altura e não propriamente no trabalho dos nomes feitos na década anterior. A sorte de Bowie residiu mesmo na sua estranha capacidade de "trocar de pele" e principalmente, no seu dom de saber envelhecer com classe.
No início da década de 90, renascia envolto em ambientes modernos e electrónicos, com uma imagem renovada e que atingiu o pico com a sua muito bem engendrada união com o génio musical da altura: nada mais nada menos que
Trent Reznor
, o senhor
Nine Inch Nails
.
"I´m Afraid of Americans"
, o perturbante
Single
partilhado por ambos teve o dom de conciliar e introduzir Bowie e o seu legado a uma nova geração de ouvintes. Seguiu-se uma triunfal digressão em conjunto em que os próprios
NIN
serviram mesmo de banda suporte do grande Camaleão. (Encontram facilmente Bootlegs e Videos desses concertos)
O seu último e muito bom álbum,
"Reality"
, já data de 2003 e desde então, Bowie tem andado retirado, salvo raras aparições e por vezes, alvo de notícias estapafúrdias, como o possível retorno da personagem Ziggy Stardust, "morta" já lá vão mais de 30 anos.
Como devem imaginar, um dos meus sonhos Húmidos (tenho vários) seria mesmo o de trabalhar como jornalista e se possível, gostaria de entrevistar duas pessoas: o
Paul Mac
Cartney
e o
David Bowie
. Ao primeiro, perguntaria como é ser-se o Paul Mac Cartney e como aguenta ele o peso que tal nome acarreta e ao segundo, perguntaria como é viver com a responsabilidade de ser talvez o artista em nome próprio mais influente de sempre e claro, aproveitaria para ver qual é a pele que ele veste agora mesmo, em 2010!
P.S : São muitas as homenagens prestadas ao legado de David Bowie mas acreditem que a melhor é mesmo cantada em Português! para quem não conhece, procurem a banda sonora do filme "Life Aquatic" do Seu Jorge, em que ele adapta as letras e a roupagem de vários temas clássicos da era de ourode Bowie em formato Guitarra Acústica/voz e o resultado é no mínimo delicioso. Ouçam por favor! Abraços e beijinhos.
http://www.youtube.com/watch?v=Pnkf-9sqEuc -
Seu Jorge: "Lady Stardust"
|
Passe a subjectividade este foi dos teus textos um dos que mais gozo me deu ler, até porque já pensara em colocar algo sobre David Bowie.
Excelente!!
Abraço!
Ps- coloquei hj um artigo...espero que leias ;)
Belo artigo
P.S. Estive a ouvir a Hiromi e Jasus... Eu não costumo gostar de Jazz que tenha guitarra e baixo eléctrico (tirando o Miles), principalmente porque depois do Jaco todos os baixistas de Jazz tentam imitá-lo em todos os sentidos, mas neste caso é impossível ficar indiferente. Aquilo não é uma mulher, é um demónio do piano! E apesar de não gostar muito do som dos outros instrumentos, todos estão on fire! Ainda só ouvi um dos álbuns (o Time Control) mas assim que for arranjando tempo, o resto há de vir!
P.P.S. Se gostaste do Frances the Mute e tens saudades de ouvir o Jon Theodore, hoje tenho o artigo ideal para ti!
Abraço!
bowie é fascinante ... não conheço nem metada da discografia dele .. ouvi o duplo album de despedida .. acho que é o The rise and fall of ziggy stardust and the spiders from mars e tens razáo é mesmo para ouvir com o som no máximo !
é a musica e as letras .. muito carismáticas e insólitas x)
vem de um meio musical ligado ao jazz pela parte do pai acho e agr é coleccionador de arte :)
vida aborrecida x)
keep on going you're the man ! :D
Apesar de não conhece tudo do Bowie, o pouco que conheço gosto muito. À pergunta sobe a musica favorita do Bowie eu diria que é a "Space Oddity" no entanto não consigo deixar de fora músicas como a "The Man Who Sold The World", "Life On Mars", "Oh You Pretty Things" e a "Heroes"...
Espero que o teu sonho se concretize porque seria uma grande perda se este teu talento e todo o teu conhecimento não fossem aproveitados!
P.S Tens um Husky? Que querido. Eu tenho uma gatinha que adora ouvir música Clássica e foge quando opto por Metal, ihi.
Cor de ter salvo a vida ao Iggy Pop. É a cor um tom acima da "fase de Berlim".
Gosto do Young Americans (penso ser o único disco que obrigou o Robert Christgau a corrigir a nota mais tarde. Elucidativo.) Não sou muito apreciador do Ziggy on dust. Gosto da fase anos 90, aquela onde mostrou engenho a brincar aos Trentreznors. (Outside e Earthling já mereciam uma reavaliação por cima. Os singles que lançou nos 80's fazem gestos obscenos. Gosto muito.
Toda a gente gosta da fase Berlim. Eu também. Uma vez conheci uma rapariga que vivia em Großbeeren. E então o seg
aproveitaria para ver qual é a pele que ele veste agora mesmo, em 2010
R: Produtor da Lady Gaga. Já não é segredo.
Já ouviste o disco do Seu Jorge com os Almaz (familia Nação Zumbi)? Deste ano? Hás-de ouvir.
É sabido que Bowie foi influenciado pelo krautrock, nomeadamente por bandas como Neu!, Tangerine Dream, Kraftwerk, Cluster e por aí fora.
Além disso, o que decerto mt pessoas não sabem, pois não conhecem a fundo a sua carreira, é que os Depeche Mode foram criados, Indirectamente, com a ajuda de Bowie. Supreendido? Ou talvez não. É simples. O vocalista David Gahan foi recrutado para os Depeche Mode (na altura Composition of Sound), após ter cantado "Heroes" do David Bowie.
Isto mostra que Bowie teve influência em coisas que mt gente desconhece.
Sem dúvida Ziggy Stardust é a "cor" preferida.
ps. eu já conhecia o trabalho feito pelo Seu Jorge. É delicioso, sabe tão bem ouvir ;)
Parabéns porcoespinho.