Sudoeste TMN: 3º dia, 7 de agosto [texto + fotogalerias + vídeos]
38 mil pessoas no terceiro dia do Sudoeste TMN, segundo Música no Coração. Saiba como correram concertos de Sugababes, Mika ou Diabo na Cruz.
No terceiro dia de concertos no Sudoeste TMN, Mika foi o concerto mais celebrado. 38 mil pessoas terão passado pelo recinto, de acordo com números oficiais. Saiba aqui como correram os concertos de Sugababes, Friendly Fires, Diabo na Cruz ou Anaquim, entre outros.
17h30
- A tarde está quente e algo nublada, mas a vida decorre com normalidade no
parque de campismo
do Sudoeste TMN. O mesmo é dizer que há muita gente a dormir nas tendas, um par de amigas que transportam mistelas misteriosas dentro de panelas (e que com muita relutância se deixam fotografar), banhistas com fartura na zona dos canais e confissões inesperadas, ouvidas aqui e ali. Por exemplo: na zona dos chuveiros, um rapaz comenta com o amigo que, de tão habituado que começa a ficar à água fria, passará a poupar na água quente mesmo quando voltar a casa.
Pelo campismo passeiam-se ainda homens vestidos de preservativo (com luzinha no topo da cabeça): calculamos que esse seja um bem de primeira necessidade num parque onde até os chuveiros patrocinados sugerem o "shower swing": duches partilhados... por motivos ecológicos, claro.
"Bolacha americana! Quem não come vai descalço para a cama!", apregoa-se também, no meio desta aldeia algo anárquica mas funcional, onde há quem mate o tempo a espremer os pontos negros das costas do amigo, e quem enfeite a tenda com os braços de papel distribuídos pela patrocinadora do festival: dobrando estrategicamente alguns dos deditos para fixar a mão em gestos menos simpáticos.
19h41
- Já começou o terceiro dia de música a Sudoeste. Os primeiros a subir ao palco Planeta Sudoeste foram
João Só e Abandonados
(as atuações no palco principal só começam às 20h30 devido ao cancelamento do concerto de Tim). Segundo informações da organização, avançadas à Rádio Comercial, foram até ao momento ingeridos 50 mil litros de cerveja e 80 mil hamburgueres no recinto do festival. É obra!
Ainda com pouca gente a assistir, João Só e os seus Abandonados mostraram-se descontraídos o suficiente para entrar na onda de quem tinha vontade de relaxar depois de uma tarde de sol. Do disco homónimo, editado em 2009, a banda apresentou canções que ficam no ouvido, sobre iPods ou sobre deixar para amanhã aquilo em que não se quer pensar hoje, e que tornam óbvio uma das grandes influências do projeto: Jorge Palma.
19h35
- "Boa noite, nós somos o
Diabo na Cruz!
", anuncia Jorge Cruz, o mentor do projeto que tocou ao fim da tarde no Palco Planeta Sudoeste. A ovação com que a banda portuguesa foi, de imediato, recebida pelo público numeroso revelou-se desde logo um bom agoiro - e o pressentimento de que este seria um concerto triunfante confirmou-se na hora que se seguiu.
De letras na ponta da língua, os muitos festivaleiros que se concentraram frente ao palco secundário vibraram com este folk-rock encorpado, onde a guitarra elétrica anda de mãos dadas com a viola braguesa de B Fachada e uma bateria especialmente virulenta, que tanto transporta ecos da música tradicional como transmite uma energia quase punk. Juntem-se-lhe teclados de som ácido e contagiante, cobertos por lenços folclóricos de Viana do Castelo (?), e obtém-se um espetáculo em estado de graça, com uma impressionante adesão popular e aquele que foi, possivelmente, um dos momentos mais enternecedores do festival até agora: o coro bem afinado, e bem sentido, em "Dona Ligeirinha", verdadeiro hit junto desta plateia.
Mas também "Os Loucos Estão Certos" ou "Lenga-Lenga", uma versão especialmente frenética do original dos Gaiteiros de Lisboa, colocaram a tenda a pular, abanar os bracinhos no ar, cantar e - apenas a pedido da própria banda, em "Bom Tempo" - assobiar com veemência.
"A minha palheta está a escorregar: deve ser dos graus, não sei se etílicos ou centígrados", partilhou a certa altura Jorge Cruz. Mas não houve escorregadela que pusesse em causa o concerto de uma banda que soube aproveitar da melhor forma a oportunidade de tocar no Sudoeste. Afinal, não é todos os dias que se vê rapaziada com sinais exteriores de permanência prolongada no campismo a cantar "Ai é tão liiindo!", sem pudor ou ironias.
20h59
- O californiano
Brett Dennen
está neste momento a tentar conquistar adeptos no palco principal (diz-se que a culpa é do futebol) - os poucos que chegaram a horas para atuação do músico ruivo com pinta de hippie (t-shirt de cores berrantes e lenço na cabeça não enganam) parecem aprovar as sonoridades folk, cheias de sol e de guitarra acústica, que seriam melhor aproveitadas numa praia em frente a uma fogueira.
Em entrevista à Rádio Comercial, o músico confessou gostar de atuar descalço porque gosta de dançar (ainda não é hoje, no entanto, que ficamos a conhecer os seus dotes de dançarino, mas ainda assim os ritmos gingões fazem o público bambolear-se). A síntese perfeita de músicos como Jack Johnson, Donavon Frankenreiter ou Jason Mraz, embora com pretensões diferentes, é melhor explorada em temas como "She's Mine" (com falsete divertido, a contagiar o público) ou "Ain't No Reason".
21h39 - "Briosa! Briosa!". Em noite de duelo futebolístico, outros cânticos se fazem ouvir no Palco Planeta Sudoeste. Os portugueses
Anaquim
, que já em 2009 se haviam apresentado neste mesmo espaço, conservam desde então a descontração e o bom humor: há versões da música de Tom Sawyer e um pedal que, no tema "O Meu Coração", imita a voz da ausente Ana Bacalhau e à qual a banda decidiu chamar, pois então, "Pascoal".
O que também se mantém é a inspiração euro-latina, que por vezes aproxima os Anaquim de uma versão mais acelerada dos desaparecidos Belle Chase Hotel.
Frente a um público numeroso e participativo, o grupo de Coimbra homenageou António Feio, depois de também os Nu Soul Family, no mesmo palco, terem tido ideia igual. O tributo chegou antes do single "A Vida dos Outros" e consistiu na criação de uma "intro da treta" para a contagiante canção. E porque os palcos não têm de ser estanques, os Anaquim decidiram "arregaezar" a sua música mais conhecida, em mais um momento que divertiu os presentes.
Vendo-nos de bloco em riste, um grupo de amigos perguntou-nos a que horas toca
Tim
. A BLITZ não dá só boas notícias e teve de responder que o vocalista dos Xutos & Pontapés cancelou o concerto a solo, com convidados como Mariza, por estar doente.
Frente ao palco principal, juntam-se apenas, de resto, as aguerridas fãs de
Mika
, a marcar lugar nas grades há um valente número de horas.
22h30
- Enquanto as
Sugababes
desfilam no palco principal, no secundário os ingleses
Friendly Fires
apresentam uma outra modalidade de música de festa, mais próxima da fábrica da DFA Records (LCD Soundsystem, !!!) mas com ligação direta às guitarras elétricas e sobretudo à bateria, estrategicamente colocada na frente do palco, como que para sublinhar a sua importância no ramalhete final.
Ed Macfarlane, o roliço vocalista, ameaça por várias vezes que vai desmaiar com o calor; certamente pouco habituado a estas noites sem ponta de aragem, aguenta-se, porém, durante todo o concerto. Empertigado e amigo do cowbell, Macfarlane sabe motivar o público interessado no que se passa em palco e disposto a dançar ao som de "Lovesick", "On Board" e demais preciosidades gingonas, ocasionalmente salpicadas de saxofones transplantados de uns anos 80 tropicais, sob a forma de samples.
23h15
- Sim, elas têm um número considerável de sucessos, sim elas são giras ("boas" mesmo, como diriam alguns fãs ocasionais ao nosso lado, surpreendidos com os dotes físicos das meninas), mas a verdade é que as britânicas
Sugababes
não têm grande noção daquilo que, enquanto estrelas pop, podem fazer em palco. A simpatia dos sorrisos plásticos está lá, as poses sensuais também, mas o trio não faz mais que pavonear-se em palco de um lado para o outro (sem nunca se separar mais de um metro, como se a santíssima trindade desabasse se tal acontecesse), dizendo inúmeras vezes que a próxima música "é a nossa favorita".
"Round Round" foi uma das primeiras canções a agitar o público (ainda em número bem mais reduzido que ontem à mesma hora), mas houve coreografia? Nada que se visse. Em "Hole in the Head" pediram ao público para dançar... Dançou? Sim, uma ou outra pessoa. O brilho de outras girls band falhou-lhes ainda mais quando apresentaram uma versão pouco inspirada de "Rabbit Heart (Raise it Up)" de Florence and the Machine (a voz de Florence Welch dá-lhes mais que 3-0).
O que se seguiu foi uma atuação morna (se calhar estamos a ser bonzinhos), que passou ainda por êxitos como a balada "Ugly", "Too Lost in You" ou "Stronger" (em versão acústica "especial"). "Wear My Kiss", o mais recente single, e "About You Now" (no final) foram ainda outras tentativas frustradas de aquecer a audiência para o espetáculo de Mika, que sobe ao palco dentro de momentos.
23h20
- Mais um momento surreal no palco principal do Sudoeste TMN: o "macho man" celebrizado por um recente anúncio televisivo pisa o mesmo chão que os maiores artistas deste festival para, com as mesmes vestes brancas da rábula publicitária, cantar, dançar a acariciar-se em modo Zezé Camarinha. É aplaudido.
01h22
- Em hora e meia de concerto,
Mika
salvou o terceiro dia de concertos no Sudoeste TMN. Com uma energia que já lhe conhecíamos, o cantor conquistou os festivaleiros com um alinhamento que passou por todos (ou quase todos: não nos importávamos de ter ouvido "I See You") os momentos altos de uma carreira que, de forma impressionante tendo em conta a quantidade de canções que retemos na memória, apenas conta com dois álbuns.
Vestido de branco e desengonçado como sempre, Mika divertiu-se em palco e divertiu quem assistiu, apostando forte nos temas mais enérgicos: "Rain" foi apresentado em versão dançável, "We Are Golden" deixou corações em alvoroço, "Grace Kelly" pôs a multidão aos pulos e "Relax, Take it Easy", a abrir, deu o tom a uma atuação sempre em ebulição.
Mesmo com momentos mais mortiços pelo meio, como "Dr. John", "Stuck in the Middle" ou "Blue Eyes", o músico conseguiu manter o público de olhos colados ao palco, com artifícios como uma perna insuflável gigante, um momento de percussão em latões do lixo ou, como já tínhamos visto no concerto do Campo Pequeno, em Lisboa, ensaiando a morte de todos os elementos da banda (competentíssima).
"Big Girl (You Are Beautiful)", "Blame It on the Girls" (com direito a coro da audiência), "Billy Brown", uma versão muito celebrada de "Sweet Dreams" dos Eurythmics ou "Lollipop", a encerrar o encore (antes de uma verdadeira festa em palco, com todas as personagens do mundo das maravilhas de Mika juntas), foram outros dos momentos que deixaram o povo (que não hesitava em chamar por ele nos intervalos entre as canções) em delírio.
Dirigindo-se aos fãs quase sempre num português extraordinariamente decorado, Mika deixou a sua marca no Sudoeste TMN 2010 cravada a ouro, com aquele que foi o seu segundo concerto num festival português e o "maior de sempre" frente ao público nacional.
01h59
- Depois do concerto de Mika, muitos foram os que abandonaram as imediações do Palco TMN. Os que resistiram, puderam sentir os primeiros (e mui inofensivos) pingos de orvalho, bem como participar em (mais uma) ação promocional: desta feita, o espetador mais rápido a ligar para o número anunciado nos ecrãs gigantes ganhava o direito a fazer-se ouvir em todo o recinto, durante roufenhos 10 segundos.
Perto das duas da manhã, ecoavam ainda alguns gritos (masculinos!) de "Mika faz-me um filho!", faz-se ouvir um violino em palco. Pertence aos
Bajofondo
, coletivo com as bandeiras da Argentina e do Uruguai no passaporte: são sete músicos em palco, distribuídos por bandoneón, contrabaixo, guitarras, percussão e programações, e o som que produzem não anda longe da fusão dos Gotan Project.
Apesar do começo delicodoce, rapidamente os Bajofondo - com Gustavo Santaolalla, o homens das bandas sonoras de
Amor Cão
ou
Brokeback Mountain
, na guitarra - aceleram e, na companhia de imagens vagamente apocalípticas projetadas ao fundo do palco, puxam pelas pernas dos mais resistentes, que saltam ao som da última banda do Palco TMN, na penúltima noite de festival. O entusiasmo foi crescendo de tal maneira que, perto das 3h da manhã, dezenas de espetadores invadiram mesmo o palco, num momento algo insólito neste tipo de espetáculo ao jeito "after hours".
A BLITZ dá por encerrada a sua reportagem. Amanhã, saiba tudo sobre os concertos de Air, Massive Attack, Carminho ou Mike Patton's Mondo Cane, na reportagem sobre o último dia de Sudoeste TMN.
Textos:
Lia Pereira
e
Mário Rui Vieira
Fotos:
Rita Carmo/Espanta Espíritos