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Sonic Youth no Coliseu dos Recreios [texto + fotogaleria] -
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Sonic Youth no Coliseu dos Recreios [texto + fotogaleria]

Cinquentões em forma fazem (quase) tábua rasa de uma história de glória e centram-se no disco mais recente. Saiba como correu o concerto dos Sonic Youth em Lisboa.

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Mais do que um concerto, a vinda a Portugal de uma banda como os Sonic Youth representa o reencontro de uma geração - aquela que terá começado a ouvir a música caótica, desviante e catártica de Kim Gordon e Thurston Moore nos anos 80 de Sister e Daydream Nation - com a mais consensual e transversal instituição no que toca a ruptura dentro do rock.

À porta do Coliseu de Lisboa (o espectáculo repete esta Sexta-feira no do Porto), havia amigos que se tornavam a ver, que se abraçavam, que queriam saber uns dos outros. E, no interior de um coliseu apinhado e abafado, todos eles assobiavam e aplaudiam num frenesim de excitação mal o ponteiro dos relógios (ou o mostrador do telemóvel) chegou às dez da noite, hora anunciada para o começo do espectáculo.

Foi com uma ovação ensurdecedora e tocante que os cinco de Nova Iorque entrariam em palco. Discretos, quase cabisbaixos, Thurston Moore, Kim Gordon (incríveis 56 anos, Deus a abençoe), Lee Ranaldo, Steve Shelley e Mark Ibold tomaram os seus lugares enquanto o público, em delírio, os aclamava da forma mais eufórica possível. Nas palmas e nas gargantas dos fãs, pressentia-se a gratidão e o reconhecimento pela história dos Sonic Youth, por estarem ali a poucos metros deles, por existirem.

Se os admiradores celebraram, compreensivelmente, a materialização à sua frente dos anos passados com a música da banda guardada no coração, os Sonic Youth preferiram seguir outro caminho. Nos corredores escutavam-se os ecos dos recentes concertos em Espanha, no qual o alinhamento se compusera sobretudo de clássicos do grupo. Afinal, aparentemente, tal só acontecera porque Mark Ibold - também dos Pavement - não pudera estar presente nesses espectáculos; em Lisboa, os Sonic Youth deveriam apresentar um alinhamento mais centrado no último disco, The Eternal , lançado no ano passado. E foi exactamente isso que aconteceu, para desconsolo de todos aqueles que esperariam que passasse pelo palco do Coliseu um maior número de "êxitos".

"O concerto devia era começar agora!", ouvimos um espectador comentar à saída. O "agora" referia-se aos dois encores do concerto, praticamente os únicos momentos em que os Sonic Youth foram ao baú de uma gloriosa história de quase 30 anos, para pescarem "Sprawl", "Cross The Breeze" (catalisador de mosh nas filas da frente, repletas de jovens buliçosos), "Shadow of a Doubt" e, a fechar, "Death Valley 69", sinistro e perturbado, pulsando de vida.

Para trás havia ficado uma apresentação quase integral do "bebé" mais novo dos Sonic Youth, The Eternal . Com uma frente armada de baixo e guitarras composta por Thurston Moore (eterno adolescente desengonçado, que a certa altura se lançaria nos braços do público, como que possuído pela guitarra que lhe estrebuchava nos braços), o grisalho Lee Ranaldo, Mark Ibold e a mãe mais estilosa do mundo, vulgo Kim Gordon, a banda nunca deixou de soar empenhada e dolorosamente "cool". Basta lembrar a dança enfeitiçada de Kim em "Sacred Trickster" ou a sua voz quase gutural em "Calming The Snake"; o ofegante e marcial "Anti-Orgasm"; os pequenos êxtases de "Stereo Santity" ou a forma como Thurston Moore dava o sinal de partida das canções com um simples "one, two, three, four!" para perceber que a noite no coliseu foi de magia, pura e dura.

"Our name is Sonic Youth and we are from New York City", apresentou, a meio do concerto, o vocalista, guitarrista e autor do belíssimo álbum a solo Trees Outside The Academy . Ninguém duvidara disso até então, mas canções como "Shizophrenia" (de Sister ), que chegaria a seguir, ajudariam à identificação e eram aquilo que boa parte dos espectadores estaria à espera na noite de ontem. Ao invés de mais material do período dourado dos Sonic Youth, porém, houve um respeito tão grande pelo "novato" The Eternal que até a música que encerrou o grosso do concerto, antes dos encores, foi a mesma que encerra o 15º disco da banda.

É caso para dizer que o público, regra geral, foi para o coliseu com planos de festejar o passado e saiu de lá com uma valente injecção de presente. Pela ovação que acompanhou a despedida dos heróis, em nada aquém daquela que os acolheu à entrada, o desvio de rota não quebrou o romance.

ALINHAMENTO SONIC YOUTH COLISEU LISBOA 22 DE ABRIL DE 2010
1. No Way
2. Sacred Trickster
3. Calming The Snake
4. Anti-Orgasm
5. Stereo Santity
6. Malibou Gas Station
7. Walkin Blue
8. Poison Arrow
9. Schizophrenia
10. Antenna
11. Leaky Lifeboat
12. What We Know
13. Massage The History
Encore
14. Sprawl
15. Cross The Breeze
Encore 2
16. Shadow of a Doubt
17. Death Valley 69


Texto de Lia Pereira
Fotos de: Rita Carmo/Espanta Espíritos
Notícia escrita por RCarmo Quinta, 22 de Abril de 2010 às 23:56
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