No entanto, à medida que ia ouvindo o som que o meu virtual caixote de lixo faz ao ser despejado, quase encetei um pensamento tecno-filosófico acerca da impossibilidade de oferecer aos pobrezinhos as cantigas que aqui tinha a mais. Um gajo não pode fazer dos mp3 aquilo que fazia com a roupa que já não serve ou os figos da quinta. Neste tempo de coisas digitais, a abundância de algo não permite o enchimento de barriga alheia e isso, apesar de não me ter transtornado por aí além, deu que pensar. Só durante sete segundos, mas deu.
Depois pus-me a reflectir sobre uma outra coisa. É que este programa dá ao utilizador a oportunidade de saber, para além do número de músicas de que dispõe e quanto espaço ocupam em disco, durante quanto tempo é que as colunas da casa debitariam melodias, caso fosse dada ao iTunes ordem para tocar tudo de seguida, de uma ponta à outra. Fiquei a saber, então, que tenho quarenta e nove dias de ininterrupta música, em potência, aqui no meu ordinateur. E quarenta e nove dias é muito dia. Era começar agora mesmo e estar até 15 de Setembro sem repetir um único tema. As contas que o software deixa fazer permitiram, além disso, imaginar-me comedido em tempo de guerra química, escondido num bunker e disciplinado ao ponto de só ouvir uma música por dia - de modo a tornar esses cinco minutos de cada folha do calendário numa experiência celestial que antrax algum seria capaz de silenciar. Ora, as 14773 malhas que já cá cantam davam para 40,47 anos a ouvir algo de novo todos os dias. O mais provável era eu morrer sem nunca ouvir a Aalyah, que é a primeira da lista, a entoar o Try Again duas vezes.
Talvez pudesse também, entretanto, ganhar amor aos membros auditivos, dar-me ao respeito e apagar imediatamente as bandas-sonoras de filmes Disney, o In Search Of Ibiza do DJ Tiësto e as setecentas e trinta e duas remisturas que o Tiga fez para os amigos, para a mulher e para os filhos. But then again... já me bastaria a idade, a escuridão e a máscara anti-gás. Pedirem-me para tirar o pé do chinelo era maldade a mais.
(artigo originalmente publicado no blogue
Cálssio
)
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é que ler o texto deu me a sensação que é o caso do exagero provocado por oferta em demasia...
No entanto, isso parece-me mais texto de blog que propriamente de fórum de música.
E concordo com o Zerochance, faz-me crer que a maioria das coisas que tens aí, tem-las porque sim e não porque realmente as ouves. Tanto é, que tinhas 3 e 4 vezes o mesmo álbum e não sabias.
que divertido..