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Pink Floyd de "Animals" a "The Wall": Um muro ao fundo túnel -
Pink Floyd de "Animals" a "The Wall": Um muro ao fundo túnel

Se é habitual ouvir que os álbuns dos Pink Floyd são uma viagem, eu diria que "Animals" nos leva para um túnel escuro, numa fábrica abandonada. No fundo desse túnel, um muro: "The Wall". 

1ª parte: http://escolhamusicaldodia.blogspot.pt/2012/07/pink-floyd-dogs.html

2ª parte: http://escolhamusicaldodia.blogspot.pt/2012/07/pink-floyd-pigs-three-different-ones.html

Prólogo - Um muro ao fundo túnel

O álbum "The Wall" já foi assunto no "Escolha musical do dia"  quando Roger Waters trouxe a Lisboa a sua megalómana digressão "The Wall Live", em Março de 2011 .

Entretanto, Waters levou esse conceito uns passos mais além, expandido o espectáculo para uma escala ainda maior e levando-o a estádios um pouco por toda a América do Sul e do Norte. A digressão tem sido um sucesso retumbante , dando-lhe a visibilidade que lhe escapava desde que deixou os Pink Floyd, em 1985. De tal forma que o histórico baixista dos Pink Floyd foi entrevistado pela CBS , no popular programa "60 Minutes" .

A história  que vos quero contar explica qual é a origem da ideia por trás do icónico álbum dos Pink Floyd, um dos mais vendidos da História da música.

Mas para perceber a origem de "The Wall", temos que recuar até "Animals", mais precisamente até à noite de 6 de Julho de 1977, a última noite da lendária "In The Flesh Tour" - a digressão de promoção ao álbum "Animals". Mas já lá vamos. 
Antes disso, atentemos no álbum "Animals", lançado em 1977, possivelmente o conjunto de temas mais agressivo de todo o catálogo dos Pink Floyd.

 


Capítulo I - Uma faísca perigosamente incandescente

Na ressaca do mega-sucesso dos álbuns "The Dark Side Of The Moon" (também um dos álbuns mais vendidos de sempre, ainda mais que "The Wall", ficando nas tabelas dos EUA durante mais de 15 anos (!!) consecutivos (!!!)) e "Wish You Were Here", os Pink Floyd estavam, em 1976, no topo do Mundo. No entanto, a gravação do álbum seguinte seria tudo menos pacífica.

Nesta altura, os Pink Floyd já tinham alcançado tudo o que poderiam sonhar, como artistas e como estrelas Rock. Desde o sucesso, primeiro localmente como banda de culto e depois internacionalmente como banda de massas, passando pelas vendas monumentais, a aclamação por parte da crítica, a enorme legião de fãs, que enchia estádios em toda a Europa e toda a América, o hedonismo e, como é óbvio... muito, muito, MUITO... dinheiro. Depois de tudo isto, já não havia muito mais que fazer para uma banda como os Pink Floyd, que neste momento já era um monstro fora do controlo de qualquer dos seus membros. A estes, restava continuar com o espectáculo

O problema é que as tensões dentro dos Pink Floyd já faziam faíscas perigosamente incandescentes. À cabeça destes atritos, estavam as 2 questões clássicas que se levantam, sempre que se cria um monstro de popularidade:  poder e dinheiro .
dinheiro , apesar dos lucros obscenos que a banda apresentava, já começava a ser um problema, uma vez que em 1976, os Pink Floyd decidiram investir em capitais de alto risco, os quais fizeram a banda perder milhões de libras.
Já o  poder , esse tinha um nome: Roger Waters. 
Foi nesta altura que Waters começou a ganhar cada vez maior proeminência na banda. O novo álbum "Animals" tinha 5 faixas e com a excepção de "Dogs" (escrita com David Gilmour), todas as faixas foram escritas por Roger Waters, sendo a primeira vez que Richard Wright não contribui com qualquer tema num álbum dos Pink Floyd. "Pigs on the Wing", um curto tema acústico, foi dividido em dois, de modo a abrir e fechar o álbum. Porém, como as  royalties  ( dividendos por direitos de autor ) eram distribuídas de acordo com o número de faixas e não com a duração das mesmas ("Dogs" ocupava o Lado 1 praticamente todo), Waters recebia muito mais dividendos que Gilmour.  Poder e dinheiro , portanto.

 


Capítulo II - O Triunfo dos Porcos

" "Animals" was a slog . It wasn't a fun record to make, but  this was when Roger really started to believe that he was the sole writer for the band . He believed that it was only because of him that the band was still going, and obviously, when he started to develop his ego trips, the person he would have his conflicts with would be me."

Richard Wright

 

A verdade é que Roger Waters era, de facto, a grande força criativa da banda. Pelo menos no que concerne ao lado conceptual. Tal como tinha sucedido com "The Dark Side Of The Moon", também "Animals" nasceu de uma ideia de Roger Waters: fazer um álbum conceptual baseado na obra "Animal Farm" (em português: "O Triunfo dos Porcos") de George Orwell.
"Animal Farm" é uma fábula politico-social, onde as várias classes da sociedade são equiparadas a diferentes espécies de animais: os cães, como forças de combate (exército); os porcos, como forças dominantes, déspotas e cruéis (classe política); as ovelhas, como seguidores cegos e acéfalos das forças dominantes (o povo).
Na alutra do seu lançamento, o livro de Orwell serviu como uma crítica ao Comunismo (mais precisamente o Estalinismo , em vigor na URSS), mas Waters usa as mesmas alegorias para desconstruir a sociedade capitalista em que vivia. Ao comparar a condição humana à de meros animais de quinta, Waters pretendia pôr a nu a dissolução moral e social da sociedade de então.
Sendo o capitalismo e o comunismo duas doutrinas teoricamente antagónicas, não deixa de ser curioso que as mesmas metáforas encaixem que nem uma luva na crítica a qualquer uma delas.

"Animals" é um álbum duro, raivoso, revoltado. Um álbum que bebeu a sua inspiração da raiva e da revolta que os membros dos Pink Floyd sentiam na época, seja em relação à sociedade (Waters), seja uns pelos outros. Estes sentimentos estão bem patentes ao longo de todo o álbum, quer na lírica e na forma irada como Roger e David cantam, quer na música e na forma furiosa como os Pink Floyd a tocam. 
Ouçam os solos de David Gilmour em "Dogs" e no final de "Sheep" e digam-me se ele não estava fod**** da vida quando os tocou em estúdio. David vivia um dos momentos mais inspirados da sua carreira e, neste caso, não importa se a sua inspiração veio do (eterno) conflito/rivalidade que mantinha com Roger Waters, ou do nascimento do seu 1º filho. O que importa é o que ouvimos e o que ouvimos é fabuloso. Se é recorrente ouvirmos que Gilmour  faz a guitarra falar , em "Animals" a guitarra de Gilmour fala alto e... com palavrões .

"It's too late to lose the weight you used to need to throw around.
So have a good drown, as you go down, all alone, dragged down by the stone."



Para materializar o álbum conceptual baseado em "Animal Farm", os Pink Floyd pegaram em 2 temas de 1974, deixados de fora de "Wish You Were Here", e desenvolveram-nos para a temática do álbum. Os temas em questão são "Raving and Drooling" e "You Gotta Be Crazy", peças longas já conhecidas pelo público que assistiu a qualquer concerto da digressão de promoção a "Wish You Were Here". "Raving and Drooling" deu origem a "Sheep" e "You Gotta Be Crazy" foi rebaptizado e reformulado para "Dogs", a única composição de David Gilmour (conjuntamente com Roger Waters) em "Animals".
"Dogs" e "Sheep" foram separados por "Pigs (Three Different Ones)" - um tema novo de Roger Waters - e, como referi em cima, a curta peça acústica "Pigs On The Wing" abria e fechava o álbum. Estava assim feito mais um álbum "à Pink Floyd", com apenas 5 temas, sendo que as duas partes de "Pigs On The Wing" não chegavam a 2 minutos e meio.

O tema que aqui deixo hoje é "Dogs", um dos temas mais furiosos deste álbum. Aqui ouvimos a receita  para a criação de um bom homem de negócios, um homem que triunfe num mundo de porcos. Para tal, este homem deve estar sempre de sobreaviso em relação aos colegas, ser obediente à chefia (qual cão amestrado), não ter amigos e estar sempre preparado para lhes "espetar a faca".

"You have to be trusted by the people that you lie to, so that when they turn their backs on you, you'll get the chance to put the knife in"

 

Capítulo III - Um porco a voar


Apesar de não ter sido comercialmente tão bem sucedido como os seus antecessores, o álbum "Animals" deixou uma marca iconográfica indelével na cultura Rock. E isso deve-se a  Algie  (o porco a voar) , à  Battersea Power Station  em Londres e a uma fotografia sublime, que ficará para sempre como uma das melhores capas de um álbum na História do Rock.

 

Sombrio e intrigante. Fabuloso.
Lembro-me perfeitamente de, quando miúdo, olhar para a capa do vinyl do meu Pai e ficar assustado. Era uma mistura de sensações  sui generis : por um lado, intrigado com o porco a voar junto às chaminés, por outro estarrecido com o poder sombrio desta imagem. Assustava-me, mas eu  tinha  que olhar. Uma atracção fatal.

A ideia do porco a voar sobre a  Battersea Power Station  foi também de Roger Waters. Nessa época, Roger passava pela estação regularmente e terá achado que aquela era uma imagem muito forte. E com razão.

"I'd always loved Battersea Power Station, just as a piece of architecture. And I thought it had some good symbolic connections with Pink Floyd as it was at that point:
A) It was a power station, that's pretty obvious. 
B) It had four legs. If you inverted it, it was like a table. And there were four bits to it, representing the four members of the band. But it was upside down, so it was like a tortoise on its back - not going anywhere, really.I had already started thinking about using inflatables during a live show. Parachuting sheep and floating pigs and all of that. And so I thought why not combine the ideas for the live show with this symbol of a decaying rock group, and put them together? Added to all that, kind of simple stuff about pigs flying, the unlikely nature of that."

Roger Waters

Ainda mais forte, era a  primeira  ideia de Roger para a capa de "Animals": um rapaz a entrar no quarto dos seus pais, de urso de peluche na mão, apanhando-os a fazer sexo. Segundo Roger:  "copulating, like animals!"
Felizmente para nós e para a banda, a ideia que vingou foi a do porco a voar sobre a estação.



 -

O porco original, ao qual foi dado o nome de  Algie , foi projectado por Waters e construído em Dezembro de 1976, com mais de 12 metros de comprimento. A ideia era fazer subir o porco a meia-altura das chaminés da estação, fotografar e fazê-lo descer. Para o caso do porco se soltar, os Pink Floyd contrataram um  sniper  para atirar sobre o insuflável e assim evitar que este voasse, literalmente, sobre os céus de Londres. Com tudo pronto, faltava apenas pôr a ideia em prática.
Porém, a tarefa não se revelou nada fácil. A sessão fotográfica prolongou-se ao longo de 3 penosos dias, em que tudo parecia correr mal.
No 1º dia, com o  sniper  preparado, e o céu ameaçador, o cenário foi fotografado, mas o porco não subiu.
No 2º dia, o porco subiu, mas uma rajada de vento forte soltou-o das chaminés e, por azar, tinham-se esquecido de avisar o  sniper  para regressar no 2º dia. Assim, o porco voo mesmo, desaparecendo no horizonte até se atravessar na rota aérea de alguns aviões que iam aterrar no Aeroporto de Heathrow, levando ao cancelamento de vários voos. O porco acabaria por aterrar numa quinta em Kent, a aproximadamente 100 km de distância de Battersea.
O porco foi assim recuperado e reparado para o 3º dia de sessão fotográfica, em que finalmente se conseguiu a tão desejada fotografia. No entanto, neste dia o céu estava azul, faltando-lhe a personalidade que tinha, por exemplo, no 1º dia.
Desta forma, a capa do álbum acabou por ser uma montagem do cenário do 1º dia, com o porco do 3º dia.

O céu escuro e ameaçador na capa de "Animals" reflecte aquilo que ouvimos no álbum. É um casamento perfeito entre a imagem e a música.

 

 

Capítulo IV - Um porco na estrada


O nascimento de "Animals" foi um processo difícil e moroso, que deixou mazelas anímicas nos membros dos Pink Floyd, mas foi apenas o início:  o início do fim
Uma vez lançado o monstro para a rua, era preciso alimentá-lo, levá-lo à estrada. Mas isso, nesta altura do "campeonato", com os Pink Floyd no topo do Mundo, só poderia ser feito em  larga escala . Assim, os Pink Floyd decidiram que, dando resposta à elevada procura em algumas cidades, estava na hora de sair do conforto das arenas e aí levar o seu espectáculo para grandes estádios.

A fome de sucesso (e de dinheiro) da máquina dos Pink Floyd era enorme, pelo que foi lançada uma campanha de promoção muito agressiva para a digressão de promoção a "Animals", enchendo páginas dos jornais com maior tiragem nos países que visitou. Embora o álbum não tenha sido comercialmente tão bem sucedido como os dois anteriores, os Pink Floyd bateram recordes de escala, de demanda e de vendas de bilhetes, esgotando arenas e estádios na Europa e nos EUA. 
A procura era imensa e a ganância dos promotores ainda maior, de tal forma que, para fazer face à elevada demanda de bilhetes, as salas estavam muitas vezes claramente sobrelotadas. Foi o caso do  Soldier Field Stadium  em Chicago, para onde deveriam ter sido vendidos 67 000 bilhetes, mas foram na realidade emitidos mais de 95 000, lesando a banda em centenas de milhares de dólares.

"You're nearly a good laugh, almost a joker
With your head down in the pig bin saying 'Keep on digging'"



Dentro do espírito megalómano que já estava intrínseco a tudo o que os Pink Floyd faziam, a banda decidiu levar consigo  Algie  (em baixo, à esquerda), o grande ícone de "Animals" - um porco insuflável gigante, que flutuava sobre a audiência e se tornaria numa das imagens de marca da banda. Foi projectado um palco mais elaborado e foram ainda criados outros insufláveis, como a"Família Nuclear"  (em baixo, à direita), para completar o cenário. Mas o que ficou para a História foi mesmo o porco insuflável, que passou a presença assídua nos concertos dos Pink Floyd e, mais tarde, de Roger Waters a solo.

 -  -

E foi assim que nasceu a  "In The Flesh Tour"  (ou  "Animals Tour" ), que espalhou raiva e desdém pela Europa e os EUA fora, desde Janeiro a Julho de 1977, em 55 concertos. 
Musicalmente e energicamente, a banda estava melhor do que nunca: coesa e confiante. Pela primeira vez desde 1972, foram dispensadas as  backup singers , mas foi recrutado o guitarrista Snowy White (que já tinha estado nas gravações de "Animals"), bem como o saxofonista Dick Parry, que preenchiam a paisagem sonora da banda em palco.

A estrutura do espectáculo era fixa: no 1º Set, o álbum "Animals" completo, numa sequência diferente da original; no 2º Set, o álbum "Wish You Were Here" completo, na sequência original; nos encores, o normal era a banda tocar "Money" ou "Us And Them", do álbum "the Dark Side Of The Moon", embora nalgumas ocasiões tocassem os dois. Com a interpretação dos 2 últimos álbuns completos, muitas vezes reforçados por longas passagem de improviso, mais um encore (por vezes alargado), os espectáculos desta digressão foram uma demonstração de força dos Pink Floyd como "banda de palco", para além do espectáculo que os rodeava. 
Embora as digressões anteriores já tivessem utilizado  lasers , projecções e insufláveis, foi especialmente a partir daqui (começando com a digressão "The Wall Live"  original ), que os concertos dos Pink Floyd começaram a atirar os intérpretes da música para um plano quase "complementar" do espectáculo.

Por tudo isto e por ser a última digressão com maior "liberdade de improviso", a "In The Flesh Tour" é amplamente reconhecida como uma das mais memoráveis digressões da História dos Pink Floyd e ainda hoje é vista com saudade pelos fãs da banda. Mas esteve longe de ser uma digressão fácil. Começando pela escala monumental dos concertos.
Outrora intimistas e em salas pequenas, os concertos dos Pink Floyd eram agora um espectáculo teatral imenso - à imagem da megalomania de Waters - servido para dezenas de milhares de espectadores, onde a música representava apenas uma parte do entretenimento. O mais curioso é que quem estava a ter mais problemas em lidar com este novo paradigma, era o próprio Roger, cujo comportamento foi ficando sucessivamente mais agressivo, à medida que a digressão foi avançando. 

As faíscas dentro da banda não tardaram a surgir e as relações entre os membros dos Pink Floyd foram-se deteriorando. Foi nos EUA que a situação piorou e a determinada altura, Richard Wright chegou mesmo a apanhar um avião para a Inglaterra, ameaçando deixar a banda a meio da digressão. Waters, mais uma vez ele, começou a isolar-se do resto da banda, chegando às salas sozinho e saindo imediatamente a seguir ao fim dos concertos. Para piorar, a sua nova namorada não se dava com Ginger Gilmour - a mulher de David na época (não eram só os homens que se davam mal...) e aí surgiu mais um ponto de discórdia entre os dois. Nesta altura, David Gilmour já não via futuro nos Pink Floyd, uma vez que já tinham atingido tudo o que sonharam e partir daí seria sempre a descer.

O ambiente estava muito difícil.
Quando finalmente chegaram as últimas noites da "In The Flesh Tour" em Julho, na Costa Leste dos EUA e Canadá, o copo transbordou.

 

 

Capítulo V - Um porco no estádio

Se é verdade que a "In The Flesh Tour" deve a sua especial mística à agressividade com os Pink Floyd interpretavam as suas músicas no palco, não é menos verdade que foi essa agressividade que matou a banda.  Com ferros matou, com ferros morreu.

Roger Waters, sempre ele, era nesta altura a figura central da banda, quer como força criativa, quer como força anímica. O seu comportamento cada vez mais agressivo ao longo da digressão foi a faísca demasiado incandescente, que acabou por consumir a banda em lume forte, uns anos mais tarde. Até lá, Roger ainda foi a tempo de criar uma das maiores obras primas da História do Rock: "The Wall". 
Grande parte do caminho pelo túnel tenebroso que levou Roger Waters ao muro de "The Wall" foi percorrido ao longo da "In The Flesh Tour" e terminou na noite de 6 Julho, no Estádio Olímpico de Montreal, a última data da digressão de "Animals".

 -

Poucas noites antes, no Madison Square Garden em New York, Roger já tinha perdido a cabeça com os técnicos de luz, contratados localmente devido à greve dos técnicos da comitiva dos Pink Floyd. Dando-se conta da dificuldade em manusearem o equipamento da banda e acertarem com as luzes no palco, Roger mandou parar a banda e gritou:  "I think you New York lighting guys are a fucking load of shit!" .

Em plena era de rebentamento do  punk , par uma banda de massas como os Pink Floyd, o público era um "bicho" difícil de lidar, para quem estava habituado às audiências mais contemplativas do início da década de 70.
Durante a digressão, especialmente nos concertos americanos, com audiências mais barulhentas, era frequente Waters insultar os espectadores das primeiras filas que não paravam de gritar nos temas mais calmos, bem como os que levavam  petardos  para rebentar na sala, desconcentrando a banda. 
Na noite de 6 Julho, em Montreal , diante de aproximadamente 90 mil pessoas, Roger não aguentou mais. Um grupo de miúdos mais entusiasmados da fila da frente irritou Roger ao ponto de... já lá vamos.

Com a prática e a confiança acumulada ao longo da digressão (para além das já referidas tensões), o último concerto da "In The Flesh Tour" foi musicalmente muito forte. A banda mostrava forte coesão e durante os primeiros temas do álbum "Animals" ("Sheep", "Pigs on the Wing (Part I)" e "Dogs") tudo parecia correr dentro do normal em cima do palco. Fora dele... nem por isso. A audiência mostrava-se particularmente faladora e barulhenta, ouvindo-se uma série de petardos  a rebentar, aqui e ali. Era impossível esperar que 90 mil pessoas se mantivessem quietas.


Quando chegou "Pigs on the Wing (Part II)", Roger Waters perdeu a paciência. Depois de tentar tocar os primeiros acordes do tema, por 3 vezes, na sua guitarra acústica, rebentou mais um petardo  e Roger parou de tocar, dirigindo-se assim ao público:


"Aww, for fuck's sake, stop lettin' off fireworks and shouting and screaming, I'm trying to sing the song!
I mean, I don't care.. If you don't want to hear it, you know... Fuck you! I'm sure there's a lot of people here who  do  want to hear it. So why don't you just be quiet! 
If you want to let your fireworks off, go outside and let them off there, and if you want to shout and holler, go and do it out there... 
I'm trying to sing a song that some people want to listen to!  I  want to listen to it..."

Estava assim feita uma declaração de guerra à audiência, não só do Estádio Olímpico de Montreal, mas também de todos os concertos dos Pink Floyd. Pelo disparo de raiva contra o seu próprio público, como um pai para um filho mal comportado, percebe-se que Roger estava farto de tudo e tinha chegado ao seu limite.


A banda continuou, mas o caldo estava entornado e Roger não tinha ainda terminado de despejar a sua amargura no público de Montreal. Quando chegou "Pigs (Three Different Ones)", Roger cumpriu a profecia que o próprio lançara num verso do tema "Dogs", chocando a audiência, a banda e, principalmente, ele próprio. Durante a secção de improviso no final do tema,  Roger chamou um dos fãs da fila da frente para cima do palco e cuspiu-lhe na cara"Who was trained not to spit in fan", indeed.


É impossível dizer exactamente quando é que foi a cuspidela, mas pelo destempero que Roger mostra no fim do tema, percebe-se que perdeu o controlo e ficou perturbado com o que acabou de fazer. Depois de ter cuspido no rapaz, Roger grita:

"Come back  pig ! All is forgiven! Come on, boy!"
(assobia, como se estivesse a chamar um animal)
"Come on, son! YEEEAAAH"
   

Tudo o que se passa no palco ganha contornos ainda mais macabros com a música sinistra de improviso, de "Pigs (Three Different Ones)", que a banda está a tocar neste momento. 

Este foi o momento de epifania de Roger Waters, quando chegou à conclusão que nada daquilo fazia sentido:  "Afterwards I became really depressed and thought, 'My God, what have I been reduced to?'"
No fim da noite, de volta ao quarto de hotel, Roger percebeu que a audiência era um perigo para ele, uma vez que o estava a alienar do  Mundo real  e, mais que isso, ele próprio se tornara um perigo para a audiência, como ficou demonstrado pela famosa cuspidela.
Foi desta ideia de perigo mútuo que Roger Waters formulou a ideia do  muro , um muro que separasse a banda e a audiência, garantindo que ninguém fizesse mal a ninguém.
Foi esta a base de construção do muro, foi esta a origem da ideia por trás do álbum "The Wall".

 

 

Epílogo - Um muro

Se é habitual ouvir que os álbuns dos Pink Floyd são uma viagem, eu diria que "Animals" nos leva para um túnel escuro, numa fábrica abandonada. Como a que vemos nas fotos que acompanharam a edição original do álbum , em  vinyl . No fundo desse túnel, um muro: "The Wall".


"In the Old Days, pre-Dark Side of the Moon, Pink Floyd played to audiences which, by virtue of their size, allowed an intimacy of connection that was magical. 
However, success overtook us and by 1977 we were playing in football stadiums. The magic was crushed beneath the weight of numbers. We were becoming addicted to the trappings of popularity. 
I found myself increasingly  alienated  in that atmosphere of  avarice  and  ego  until one night in the Olympic Stadium, Montreal, the boil of my frustrations burst. 
Some crazed teenage fan was clawing his way up the storm netting that separated us from the human cattle pen in front of the stage screaming his devotion to the demi-gods beyond his reach. Incensed by his misunderstanding and my own connivance,  I spat my frustration in his face
Later that night, back at the hotel, shocked by my behavior, I was faced with a choice. To deny my addiction and embrace that  comfortably numb  but magic-less existence or accept the burden of insight, take the road less traveled and embark on the often  painful journey to discover who I was  and where I fit. 
THE WALL  was the picture I drew for myself to help me make that choice."


Roger Waters, 1995


 -

Artigo escrito por Mustapha Segunda, 16 de Julho de 2012 às 15:35 (4 comentários )
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Re: Pink Floyd de "Animals" a "The Wall": Um muro
por: Deth_Floyd | siga este autor | enviar mensagem privada Segunda, 16 de Julho de 2012 às 22:48, 2 pontos
Excelente texto, Mustapha! Talvez por ter a tarefa ingrata de suceder a Wish You Were Here (talvez o álbum mais conseguido da banda) e anteceder The Wall (pessoalmente, o meu favorito), o Animals acaba por ser desvalorizado, quando também é um álbum simplesmente assombroso.

Curiosamente, tanto a "Sheep" como "Dogs" foram resgatadas de ideias descartadas no Wish You Were Here, se não estou em erro na altura seriam "Raving And Drooling" e "You've Got To Be Crazy", respectivamente. E mesmo nessa fase "embrionária", já se notava ali que Waters queria expressar alguma da sua revolta com o que o rodeava.

E é a partir do Animals que se nota claramente uma tendência vincada de Waters em dar ainda mais ênfase às letras, uma face que viria a explodir em The Wall, onde as letras assumem claramente mais importância do que a música.
por: Mustapha | siga este autor | enviar mensagem privada Terça, 17 de Julho de 2012 às 10:35, 1 ponto
É verdade, eu refiro essa evolução a partir do "Raving and Drooling" e "You Gotta Be Crazy" algures no Capítulo II ;-)

Embora eu perceba o que tu queres dizer com a "tendência" a partir de "Animals", uma vez que é a partir daqui que o Roger assume o leme do controlo da banda, na minha opinião ainda não é aqui que a letra começam a assumir maior importância que a música. Isso acontece nalgumas secções do "The Wall" e depois assume grande destaque no "The FInal Cut", esse sim, mais uma obra lírica do que musical, tendo em conta o que os Pink Floyd já tinham mostrado anteriormente.
Incidente no Madison Square Garden
por: Mustapha | siga este autor | enviar mensagem privada Terça, 17 de Julho de 2012 às 15:24, 1 ponto
Mais uma acha para a fogueira: no Capítulo V, refiro um incidente no Madison Square Garden, em que houve uma greve dos técnicos de luz da comitiva dos Pink Floyd e por isso a banda teve que recorrer a mão-de-obra local para fazer o trabalho. Confrontado com a inabilidade e inexperiência dos técnicos locais, Roger reage assim:
 
http://www.youtube.com/wa...

"I think you New York lighting guys are a fucking load of shit!" .

Ouçam o vídeo e digam-me se o Roger não está GENUINAMENTE fod***!
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