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O maior concerto da minha vida! -
O maior concerto da minha vida!
50 anos? isso não é nada ;)

Rolling Stones, estádio municipal de Coimbra, 27/09/03

 

O maior concerto da minha vida pode ter acontecido em 2003, mas em boa verdade, foi o culminar de uma história que havia começado em 1990, altura da 1ª visita da maior banda de Rock n´Roll de todo o sempre ao  nosso país, que inauguraria a primeira de muitas noites mágicas no palco "dos sonhos" do antigo Estádio de Alvalade. Eu era ainda um petiz e andava no secundário e curiosamente, foi mesmo numa sala de aula que tive a noção da comoção gerada por esse acontecimento. Uma certa ocasião, o director da escola entrou na sala de aula para comunicar qualquer coisa á professora e surpreendentemente, dirigiu-se à turma nestes termos. "Então, os vossos pais vão ao concerto dos Rolling Stones? Eu já tenho bilhete!". Acreditem, isto aconteceu mesmo.

Evidentemente (ou por mero acaso), nem eu, nem os meus pais, nem os meus amigos ou os pais deles foram ao concerto. Da minha parte, teria adorado a experiência, que vivi através dos recortes com a reportagem que arranquei de um jornal chamado "Êxito" que um meu tio comprava regularmente. Foi desse modo que "vivi", por exemplo, a estrondosa passagem da "Momentary Lapse of Reason Tour" dos Pink Floyd por Espanha, entre outras. Por acaso, o álbum "Steel Weels" que os Stones andavam a promover naquela Majestosa "Urban Jungle Tour" fazia as minhas delícias, graças a uma k7 gravada que comprara numa festa popular qualquer (memórias de uma Pirataria bem mais artesanal).

Volvidos alguns anos, perdi a 2º passagem dos Stones no mesmo local, como perdi muitas outras. Mas em 2003, tendo já iniciado a minha carreira de "festivaleiro", não fiquei indiferente aos rumores que se levantaram acerca de um suposto concerto dos Stones em Coimbra. Mais do que o local, a urgência da notícia prendia-se à enigmática "World Licks Tour", com a qual a banda celebrava o 40º aniversário da sua existência em regime "Best Of" e supostamente, dizia-se à boca pequena, seria a última.

 Do rumor à confirmação, passou-se pouco tempo. O concerto aconteceria no renovado Estádio Municipal de Coimbra (na altura Capital Europeia da Cultura), num sábado, 27 de Setembro, supostamente graças ao cancelamento da data de Saragoça. Mas o que importava é que aconteceria mesmo e nessa mesma hora decidi que não perderia aquilo por nada, mesmo sabendo que o mais certo seria não ter companhia. Já não posso precisar o dia em que os bilhetes seriam postos à venda, mas sei que foi num dia de semana, à tarde. Seriam postos à venda em alguns postos seleccionados da Galp (patrocinadora do evento) e nas lojas Fnac. A Fnac mais próxima que eu tinha ficava a 50 Km (Norte Shopping) e um grande Amigo disponibilizou-se a ir comigo.

 Não estava preparado, ou melhor habituado, àquilo que encontrei. Uma enorme fila de pessoas com epicentro na entrada (barrada) da Fnac e com um fim incerto. Oficialmente aberta a bilheteira, os funcionários foram coordenando a coisa. O meu amigo, provavelmente inspirado por toda aquela emoção colectiva, decidiu que também iria ao concerto. Passaram-se horas e os rumores de que os bilhetes mais baratos (40€ na Relva, os que me interessavam) estavam prestes a esgotar ou mesmo esgotados. A espera tinha já há muito ultrapassado o limite do suportável, até que um funcionário veio comunicar que naquela loja apenas restavam os bilhetes mais caros. Levantou-se um tumulto geral pois ainda estavam largas dezenas de pessoas na fila!

 Entretanto, um senhor especialmente impaciente que se encontrava atrás de mim recebeu um telefonema a avisar que um posto de combustível no Freixo aparentemente tinha bilhetes disponíveis e, talvez por meio de uma intervenção divina, tocou-me no ombro sorrateiramente e disse para o seguirmos. Foi o que fizemos e quando chegamos ao local, mais uma fila, embora significativamente mais pequena (acabou por aumentar imenso). Após cerca de mais uma hora de espera, tive finalmente o tão ansiado bilhete mágico para a relva (a um preço que hoje não se consegue para um concerto desta magnitude). Caramba, se para conseguir um bilhete foi preciso uma maratona de quase 8 horas, não restavam dúvidas que aquilo seria algo de memorável!

 Foram longos meses de ansiosa espera, mas o tão aguardado dia chegou e lá rumamos pela A1 fora rumo a Coimbra, uma cidade que conhecia-mos de um modo algo superficial (Portugal dos Pequenitos e pouco mais). Quando chegamos, estacionamos o carro perto da ponte da Europa e fizemos a pé o percurso até ao Estádio, bastante bonito e pronto para o Europeu de Futebol que se realizaria no ano seguinte. O ambiente era mesmo de festa. Pessoas de todas as idades, desde os maduros fãs hardcore, famílias inteiras, aos curiosos de ocasião. A destoar, apenas um outro candongueiro de mau aspecto tentando vender bilhetes de origem duvidosa, mas pelo que soube, a polícia estava atenta. Por todo o lado, a típica língua de fora era o símbolo dominante e se os preços nas bancas de merchandising oficial eram impensáveis, não faltavam vendedores de ocasião com T-Shirts engraçadas a "preço de amigo" e por isso mesmo, não havia razão para não entrar no estádio vestido a rigor com uma bela língua ao peito.

O palco era impressionante, não tão grande ou vistoso como o das digressões anteriores, mas ainda assim, nunca tinha visto uma estrutura do género ao vivo. Um corredor (a pista de jogging do Mick Jagger) ligava o palco principal a um palco mais pequeno, situado ao meio do estádio, no qual já se sabia que a banda tocaria alguns temas. Conseguimos encontrar um lugar bem estratégico e próximo do palco, imediatamente atrás das grades que limitavam o espaço "VIP" mesmo lá na frente.

 Na tarefa de aquecer o público, teríamos duas bandas: Os Xutos e os Primal Scream. Honestamente, foi o melhor dos muitos concertos que vi dos "nossos Stones". Foi um set de meia hora composto por hinos e por isso mesmo, agitou e convidou toda a gente a cantar sem ficar aquela sensação de aborrecimento. Não seriam precisas mais bandas de abertura, pois os senhores de "Screamadelica" (bastante influenciados pelos Stones), não conseguiram conectar com o público. Os Primal Scream podem ser uma banda com estatuto, mas alí foram pequeninos e fora a sempre animada "Movin´On Up", as coisa nem sequer chegou a amornar.

 Apagam-se as luzes. O ambiente é indiscritível. De repente, soa o Riff, aquele Riff: "Brown Sugar". É o mítico Keith Richards o primeiro a entrar em palco e de repente, dá-se uma explosão de luz e som do meio da qual irrompe um endiabrado Mick Jagger na primeira das muitas vezes que percorreria o estádio de ponta a ponta ao longo do espectáculo. Não há tempo para recuperar o fôlego porque a sequência "Start Me Up" e "You Got Me Rocking" não deixou.

 Só quando tocaram o tema novo, "Don´t Stop", incluído na colectânea "Forty Licks", que serviu de mote a digressão, é que tive finalmente a oportunidade de "acalmar" e absorver um pouco da enormidade do evento. Era mesmo real, os Rolling Stones estavam mesmo alí na minha frente, acompanhados de um naipe de músicos extra. O Mick Jagger era tal e qual como o das fotografias e vídeos. Frenético e sempre a puxar pelo público, movendo-se daquela forma que só ele sabe. O Keith Richards, que ficou mais próximo do lado onde eu estava, não se mexia muito mas cada movimento dele parecia carregado de coolness. Lá atrás, o baterista Charlie Watts mantinha aquele ar "aristocrático", com a sua batida certeira e por último, o Stone "caçula", mr Ronnie Wood, que a par do patrão Jagger, foi manifestamente o mais divertido em palco e o pormenor curioso da câmara instalada no braço da sua guitarra permitiu ao público ver mais de perto aqueles "rendilhados" que tece com o mestre Keith.

 Foi algo tão intenso que honestamente, ainda hoje sei o alinhamento quase de cor. O primeiro momento verdadeiramente catártico chegou com a "Angie", cantada em uníssono e olhando à minha volta, vi lágrimas escorrendo de rostos felizes e claro, pessoas de isqueiros no ar, mas aparentemente sem entenderem patavina do peso histórico desta ou das restantes canções da noite. O momento "sing along" aconteceu em "You Can´t Always Get What You Want" onde Jagger pôde dar azo à sua fama como condutor de multidões e o certo é que 45 mil pessoas motivadas não podiam decepcionar o mestre de cerimónias.

 Depois do canto, veio a dança com "Miss You", que agradou particularmente ao par de deslumbrantes espectadoras que se encontravam ao meu lado, um verdadeiro espectáculo dentro do espectáculo! Mais ou menos a meio do concerto, chegava o habitual momento do Senhor Keith Richards assumir a liderança. Curiosamente, um selvagem que gosta de fazer coisas calmas. A bela "Slipping Away", do tal album da k7 pirata e que certamente deve ter sido tocada no seminal concerto de Alvalade e depois, a energia de  "Happy", com o Ron Wood a brilhar num excelente exercício de Slide Guitar. Depois, a reentrada da sua infernal majestade para um igualmente diabólico "Simpathy for the Devil" e juro que senti na cara o calor emanado pelas enormes bolas de fogo que foram cuspidas do topo do gigantesco palco. Parecia que o espectáculo tinha terminado. Puro engano.

 A banda voltaria, agora no palco mais pequeno situado bem no meio do estádio, para rendições enérgicas de "It´s Only Rock N´Roll", uma apropriada cover da "Like A Rolling Stone" de Dylan e a "Street Fighting Man". Voltadas as atenções novamente para o palco principal, a recta final do concerto seria inesquecível. Era um concerto "Best Of" e os Stones não fizeram por menos. A minha música favorita, aquela que desejava ardentemente que tocassem, apareceu pelos dedos do Keith e do pré-anuncio da fogosa Back Singer Lisa Fischer. Falo obviamente da "Gimme Shelter" e garanto que foi um daqueles momentos que só mesmo vistos, Não dá para contar. Seguiu-se uma inesperada e bem antiga "Paint it Black", a festiva "Honky Tonk Women" e para o fim, história em palco: Um dos riffs mais memoráveis de sempre, uma letra que toda a gente sabe de cor: "Satisfaction".

 Parecia que o concerto tinha terminado com o último grito de "I Can´t Get No!", mas coube a outra peça de história, "Jumping Jack Flash" encerrar uma noite em que nos ecrãs gigantes, dava para entender que público e banda pareciam bastante satisfeitos. Ainda demorou um pouco até que o público começasse a desmobilizar e tive a oportunidade de ouvir um grupo de veteranos dizerem que o alinhamento desta noite tinha sido o melhor que já tinham presenciado. No que me diz respeito, concordo.

A história não apagou a magia daquele soberbo concerto, mas provou que aquela não seria a última digressão da banda, algo que pelos vistos já se dizia na de 1990. Atestando a sua longevidade e impressionante vitalidade, Os Stones fariam um novo álbum, "A Bigger Bang!" (com críticas variando do excelente ao risível) e uma nova digressão que os trariam de volta, desta vez ao estádio do Dragão. Apesar da maior proximidade, não fui, muito por culpa da exagerada especulação do preço dos bilhetes que impediu inclusive uma moldura humana à altura da banda em questão. Exigências do mercado, dirão os promotores. Ah! E não satisfeitos (como diz a sua própria canção), ainda regressariam a Alvalade no ano seguinte ;)

Até a presente data, já tive o prazer de ver ao vivo outras lendas vivas como os senhores Neil Young e o Bob Dylan, mas ainda assim, nada que superasse o para sempre inesquecível concerto dos Stones em Coimbra. Hoje celebram a impressionante marca de meio século de actividade e as pedras rolantes lá vão mexendo cada uma para o seu lado e questionados sobre se rolarão em conjunto para uma majestosa digressão comemorativa, as suas respostas são enigmáticas, mas distantes da negação, pelo que não ficarei impressionado com um anuncio envolto em pompa e circunstancia, mais ou menos assim : "É oficial: A maior banda de Rock n´Roll de sempre celebrará o seu 50º aniversário com um disco novo e uma digressão mundial". Que assim seja! Muitos parabéns!!

 

Artigo escrito por porcoespinho Quinta, 12 de Julho de 2012 às 11:24 (10 comentários )
10 Comentários
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Re: O maior concerto da minha vida!
por: Microgaitas | siga este autor | enviar mensagem privada Quinta, 12 de Julho de 2012 às 18:20, 2 pontos
Magnífico texto, mais uma vez. Nunca tive a oportunidade de ver os Stones ao vivo, mas um dia espero ter esse privilégio. Quanto a outras lendas e grandes bandas já não me posso queixar ;D

Parabéns pelo texto mais uma vez.
Re: O maior concerto da minha vida!
por: Necka | siga este autor | enviar mensagem privada Terça, 17 de Julho de 2012 às 12:25, 2 pontos
Bem, que memória que tens. Não parecendo já lá vão praticamente 10 anos, lembro-me bem deste concerto mas não com o esse nível de detalhe. Para mim foi muito especial, foi o primeiro concerto que eu vi (à excepção de uma ou outra banda portuguesa) e foi aquele que me despertou a paixão por concertos. 10 anos depois, já lá vão mais de 200 concertos vistos e apenas meia duzia de nomes considero oferecerem uma performance ao nível deles. É impossivel não ficar impressionado com a magnitude do espetaculo dos Stones. Depois desse ainda os vi mais 2 vezes e estiveram sempre ao mais alto nível.

Um concerto dos Stones devia de ser uma experiencia de vida na bucket list de qualquer pessoa. Esperemos que voltem no próxima ano para a tão aguardada tour dos 50 anos e que estejam ao mesmo nível.
Re: O maior concerto da minha vida!
por: Deth_Floyd | siga este autor | enviar mensagem privada Quinta, 12 de Julho de 2012 às 22:02, 1 ponto
Olá porcoespinho,

Mais uma vez, excelente texto! Ver os Rolling Stones é algo que deveria ser obrigatório para qualquer amante de Rock N' Roll que se preze (e não só!), uma oportunidade que infelizmente ainda não tive. Como referi num comentário meu aos 50 anos da banda, Rolling Stones é sinónimo de Rock N' Roll, e não falo só das palavras! Provavelmente a infame frase "sex, drugs & Rock N' Roll" terá sido feita para os descrever...

Fala-se muito de uma tour no próximo ano, será que passam por este cantinho?
excelente crónica
por: kiko5575 | siga este autor | enviar mensagem privada Sexta, 13 de Julho de 2012 às 16:04, 1 ponto
Dos Stones tenho melhores recordações do anterior em Alvalade, com 2 amigos a irmos histéricos para Lisboa... ainda hoje falamos desse concerto com uma certa nostalgia e saudades...

E foi melhor porquê? porque foi o primeiro da, na altura, minha banda favorita... tinha uma contagem decrescente dia após dia riscando o dia passado e estando o objectivo mais próiximo...

depois voltei-os a ver em Coimbra e 2 vezes em Espanha, perdi-os aqui no porto por não estar cá, mas magia mesmo , foi o primeiro.....

Abraço
Re: O maior concerto da minha vida!
por: DWilde | siga este autor | enviar mensagem privada Sexta, 13 de Julho de 2012 às 16:41, 1 ponto
Que bom que é chegar aqui, eu que tenho andado bem mais ausente e ler um texto como este caro amigo.
Sou um fã dos Stones, embora note que és mais do que eu. Mas, julgo que, sejamos ou não fãs, é impossível não reconhecer o seu legado ev trajecto. E durabilidade.E tenho pena de nunca os ter visto. Pode ser que ainda consiga, neste prometido regresson aos palcos.
Até hoje, e já vi alguns concertos muito bons, posso dizer que o meu concerto de uma vida (até agora, venham mais!) foi o do Bruce Springsteen (inveja tenho de amigos que o viram no maior concerto que já deu: Madrid, 2h48 este ano e dizem que foi para lá de arrebatador).
Sobre os Stones tanto há a dizer, adorei ler isto.
Grande abraço.
Re: O maior concerto da minha vida!
por: KellyJelly | siga este autor | enviar mensagem privada Sábado, 14 de Julho de 2012 às 18:49, 1 ponto
Oh meu Deus, aqui está um artigo excelente! (não que houvessem duvidas quanto à tua veia jornalística) :).

"Eu era ainda um petiz e andava no secundário (...)" ahaha, tão querido^^
"Então, os vossos pais vão ao concerto dos Rolling Stones? Eu já tenho bilhete!" a sério que o director da escola disse isso?? So fucking crazy! Também quero um director assim u.u

Em primeiro lugar deixa me já dar-te os parabéns pela tua extraordinária memória ;). De todas as Vezes que os Rolling Stones passaram aqui pelo país, nunca tive a oportunidade de os ver, o que lamento imenso, mas a fazer fé em que eles voltarão com uma digressão para celebrar o seu 50º aniversário, lá estarei (espero)!
Realmente estava difícil conseguires o bilhete, mas vá lá ao fim de tanto tempo de espera conseguiste um para o lugar que querias e ainda tiveste a companhia de um amigo.

As bandas de abertura também não tinham grandes hipóteses, ou não estivessem elas a abrir o conserto para uma das maiores se não mesmo a maior, banda de rock 'n' roll.
De certo que o concerto deve ter sido mesmo incrível, até porque estes senhores não fazem a coisa por menos, e o senhor Mick sabe sempre como puxar e motivar o público, e ninguém lhe fica indiferente. Em termos de alinhamentos, pelo que vi, parece ter superado mesmo expectativas, pois ai estão todos os clássicos da banda o que deve ter ajudado o público a cantar também :)

"Até a presente data, já tive o prazer de ver ao vivo outras lendas vivas como os senhores Neil Young e o Bob Dylan (...)", que inveja...começo a achas que nunca verei o senhor Dylan ao vivo é triste :(

Não vou pedir ao Stones que continuem no activo por mais meio século, mas que continuem por cá até conseguirem e assim talvez terei ainda a oportunidade de os ver, até por o senhor Jagger nunca perde aquela sua essência em palco por isso...

Parabéns pelo post, foi realmente uma óptima critica^^
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