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"Eu não gosto de Reggae. Gosto de Bob Marley"
É verdade e esta máxima surgiu-me a propósito da recente Biopic feita em torno da sua figura, pela primeira vez, com o total apoio da família do artista.
Acredito que seja falha minha, mas não encontro na cadência repetitiva típica da maioria do Reggae grandes motivos de interesse e apesar de existirem outros vultos de relevo dentro do género, muito por força da globalização do seu nome, os únicos discos de Reggae que possuo e dos quais a seu tempo aprendi a gostar, são do Bob.
O Bob Marley é uma figura a todos os níveis ímpar. Começando logo pelo título que após 30 anos passados do seu desaparecimento, ainda lhe assiste: O de estrela maior do Terceiro Mundo. Porém, o que mais impressiona é o caracter Messiânico que a sua passagem por este mundo assumiu:
Nasceu pobre e humilde. Não era nem Branco, nem Negro. Indivíduo eminentemente espiritual e com ideias, tornou-se numa estrela maior e as suas palavras, ora fracturantes, ora conciliadoras, eram dirigidas a todos e tocavam particularmente no íntimo de cada um. Interagiu com o seu meio, fazendo paz entre fracções desavindas e apontando o dedo aos podres. Mexeu com interesses instalados e incómodo, acabou perseguido pelos seus. Nos últimos momentos, espalhou a sua mensagem pelo mundo, antes de partir ainda novo. Já morto, a sua figura transformou-se numa imagem de marca vendida em quase tudo, desde uma T-Shirt a um estojo de guardar erva, não implicando necessariamente que a sua mensagem tenha sido sempre compreendida.
Mas ele também foi músico e apesar de ser já uma estrela em virtude de temas fortes como "Get Up, Stand Up", "I Shot The Sheriff" e claro, "No Woman No Cry", foi nos últimos anos da sua já longa carreira que viu finalmente a sua obra conhecer a aclamação generalizada, não apenas do público, mas também da sempre reticente crítica, que demorou a expressar o seu reconhecimento.
No final de 1976, em virtude do seu empenho directo nas conturbadas Eleições Governamentais da sua Jamaica natal, uma facção rival viu quase bem sucedido um atentado à vida de Marley e do seu núcleo mais próximo (ele foi levemente alvejado e a sua esposa "oficial", Rita, acabou gravemente ferida). Posto isto, o passo seguinte foi o exílio forçado em Londres.
Curiosamente, esta pandilha de rastas instalou-se em terras de sua Majestade em plena explosão Punk e a mistura não podia ser mais interessante. Mas toda uma sucessão de acontecimentos devem ter mexido fundo no íntimo de Marley e isso teria necessariamente de reflectir-se na sua música. Era um Alien numa terra que não era a sua. Devido à partida do seu velho companheiro Peter Tosh (alegando que o estatuto de estrela não condizia com os preceitos do Rastafarismo), viu-se na necessidade de incluir sangue novo nos seus Wailers. Mais importante ainda, os recentes e dramáticos acontecimentos que viveu levaram-no a tomar uma direcção cada vez mais espiritual.
O resultado em forma de disco teve o nome de "Exodus", que é não apenas um dos melhores discos por ele assinados, como um dos melhores de sempre na história da música. Embora ainda se verifique o dedo acusador, a esperança, o amor e a espiritualidade são temas dominantes. "Three Little Birds", "Jammin'", "One Love/ People Get Ready", "Waiting in Vain" tornaram-se clássicos instantâneos, mas a refinação das composições de Marley teve na belíssima "Turn the Lights down low" um sublime exemplo. Um portento de disco.
Já é sobejamente conhecida a história que levou ao desaparecimento de Bob Marley. Coerente com as suas convicções religiosas, levou a sua fé ao extremo e sucumbiu a um cancro que, tratado convenientemente, poderia não ter sido fatal. Ainda em vida, faria mais dois discos de enorme sucesso ("Kaya" e "Uprising"), faria (no final em grande sofrimento) digressões triunfais pela Europa e regressaria reconciliado à sua Jamaica, onde foi recebido (e depois sepultado) como herói Nacional.
Se a sua imagem se tornou uma marca de referência por si só, a sua influência como músico e nome maior do Reggae foi notada logo que se instalou em Londres, aquela que seria conhecida como a "2º capital do Reggae". Os punkers The Clash não se fariam rogados em incluir pitadas de reggae na sua música e o mesmo se verificaria na génese da New Wave, com os Blondie e os The Police à cabeça e, não muito mais tarde, conheceria mais desenvolvimentos através do Ska e muitas outras metamorfoses e homenagens até aos nossos dias. Por outro lado, coisas como os UB40 deixam-me não poucas vezes a clara ideia de que não devia ser permitido aos brancos cantarem Reggae...
A ironia da morte faria o seu nome e a sua música crescerem exponencialmente, mas tendo consciência da sua partida eminente, foi o próprio Marley quem escreveu o seu epitáfio, na última música do último disco que editou em vida: "Won´t you help to sing, these songs of freedom, 'cause all I hever have, redemption songs".
Respeito. Muito respeito.
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Posso ter compreendido mal as tuas palavras, mas creio que o Ska é mesmo um precursor do Reggae! Agora que abriu portas para muitas bandas e artistas incorporarem o Ska e Reggae na sua música, sem dúvida alguma. Para mim, os The Clash são um exemplo máximo nisso, pegaram nessas influências, misturaram-nas com o Punk e fizeram dali uma sopa única, só mesmo da sua autoria.
Não sou fã de Reggae, mas também não é um género que desprezo, e tirando as músicas mais "óbvias", pouco conheço do Bob Marley "músico", mas é impossível negar que este homem deixou a sua marca na música... e no mundo.