|
Meus amigos, se eu fui alguma vez fã hardcore de uma banda Portuguesa, essa banda, se assim lhe quiserem chamar, chama-se Madredeus. Segui-os por todos os lados que me foram geograficamente possíveis, comprei os seus discos e coleccionei merchandising deles, desde fotos, recortes de revistas, gravações de aparições televisivas a guias e posters de Tournée.
Encontrei no "Espírito da Paz" o seu auge, o ponto que lhes seria impossível transcender e não me enganei. A partir daí, com a saída do acordeão do Gabriel Gomes e do Violoncelo do saudoso Francisco Ribeiro, as coisas mudaram.
A voz, essa voz única entre as vozes, continuava lá, como continuavam as belas melodias e as palavras ricas do eterno timoneiro Pedro Ayres Magalhães, mas os discos e as digressões foram-se sucedendo, cada vez mais artisticamente inconsequentes, algo gravíssimo tratando-se dos Madredeus. O fim esse, não me surpreendeu.
Ficaram as memórias engraçadas dos meus amigos a zombarem de mim, chamando-me "Ave rara" por gostar tanto dos Madredeus (não podia esperar-se que um puto borbulhoso fosse ter tal gosto), as artimanhas para convencer os meus pais a levarem-me a concertos e mais tarde, já mais crescido, desenrascar uma companhia, ainda que meio contrariada, para assistir ao majestoso recital que deram no regresso do agora já extinto Festival Vilar de Mouros, numa tarde de Agosto, em 1996, onde com a beleza da sua música calaram de espanto milhares e milhares de festivaleiros. Segui-os sempre que me foi possível, mas justa ou injustamente, com a partida da Teresa, o meu interesse foi-se com ela.
Surpreendeu-me e bastante o regresso dos Madredeus (com a adição de um subtítulo e uma abordagem mais "progressiva"), que se por um lado seria injusto ficarem reféns da ausência da Teresa, provaram que não bastou a música bonita para manter uma magia que se havia perdido. O Pedro ainda continua insistindo no projecto, dizendo que os Madredeus não são um "grupo", mas sim um "reportório".
A Teresa Salgueiro está de volta, linda como sempre, com um visual menos sóbrio e mais ousado e traz com ela um disco novo, chamado "Mistério", do qual ouvi ainda pequenos excertos, que me agradaram bastante e que espero presenciar num palco em breve.
Foi engraçado vê-la no 5 para a meia noite expondo desassombradamente o motivo da sua saída dos Madredeus e ficou claro que se a música é um negócio (porque também o é), uma visão demasiado empresarial é nociva para a vida dos artistas e sobretudo, para a pureza da arte.
Sê bem vinda Teresa!
|
Ouvir Os Dias da Madredeus em 87/88 era diferente. Especialmente depois de uns Heróis do Mar ou assim...
Do meu ponto de vista, Pedro Ayres Magalhães estilizou demasiado o projecto e começou a "espartilhá-lo" a partir precisamente do Espírito da Paz. Lembro-me de achar as letras demasiado contidas para serem mais facilmente traduzíveis/internacionalizáveis... é muito ténue, às vezes, a linha que separa a arte do negócio... seja como for, o brinquedo é dele para estragar como muito bem entenda, esta é a minha opinião. O que não quer dizer que o "Vem", por exemplo, não continue a ser uma canção bonita. E gostei quando ele chamou ao disco anterior dos Madredeus "um disco punk".
Não sei grande coisa sobre o disco novo da Teresa Salgueiro. Por acaso, passei-lhe os ouvidos anteontem. Pelo pouco que ouvi, não se afasta muito das sonoridades do projecto Madredeus.
Podiam fazer todos uma digressão conjunta >>:)
Partilho um pouco dessa tara, embora não os siga religiosamente. Mas se algum estrangeiro me pedir para lhe dizer uma unica banda portuguesa à maneira, os Madredeus são bem capaz de ser a minha primeira resposta.
Tem ali a alma, a nossa alma.