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Figuras do Ano para a revista BLITZ: Porque é que PJ Harvey não é como as outras
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BLITZ de dezembro, ainda nas bancas, debruça-se sobre algumas das figuras que mais marcaram a música em 2011. Veja o que escrevemos sobre PJ Harvey e
Let England Shake
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Há quem diga que a História só pode ser estudada com considerável distância temporal - essa teoria explica que, nas escolas portuguesas, o 25 de Abril nunca seja tratado com grandes delongas, nos manuais do secundário, e poderá ajudar a perceber, também, porque é que PJ Harvey, nascida há 42 anos numa zona rural do Sudoeste de Inglaterra, filha de uma escultora e de um pedreiro, levou uma década a refletir, na sua obra, o 11 de setembro.
Polly Jean, uma artista que, ao contrário de tantos dos seus companheiros de ofício, não se define numa só frase (é a mulher de
Dry
, ou a de
White Chalk
? A cantora rock, ou a poetisa folk?), estava nos Estados Unidos quando quatro aviões quebraram o sonho de invencibilidade do povo americano. Foi retida em Washington, a ver televisão no quarto do hotel, que acompanhou as imagens do Pentágono a arder. Foram os atentados desse dia, possivelmente o mais marcante, a nível mediático, da última década, que impediram PJ Harvey de voar para Londres e receber em mãos o prémio Mercury pelo seu álbum "nova-iorquino",
Stories From The City, Stories From The Sea
. Em 2001, ela seria a primeira mulher a levar para casa (ou para casa dos pais, onde diz guardar os prémios) o troféu mais cobiçado da música britânica. Dez anos depois, pôde marcar presença na cerimónia dos mesmos prémios, lado a lado com Adele, Anna Calvi ou Jessie J., e agradecer o segundo Mercury (mais uma vez fazendo história, ao tornar-se a primeira artista a bisar no certame).
O 11 de setembro e a década que se lhe seguiu, com as guerras do Afeganistão e do Iraque em destaque, serviram de inspiração a
Let England Shake
, o disco que, em 2011, valeu a PJ Harvey o segundo Mercury e um renovado respeito pelos seus atributos musicais, mas também como narradora, observadora e artista perita em mudar de pele pública. PJ não encarou a sua missão de ânimo leve: leu livros de História, ouviu vítimas de vários conflitos em todo o mundo e concluiu que o sofrimento fala sempre a mesma língua. Em entrevista ao Guardian, em setembro deste ano, Polly Jean contou que
Let England Shake
nasceu de um sentimento de "enjoo, perturbação e impotência" face à violência dos últimos dez anos, mas que a pesquisa e a reflexão a levaram a entender que essa mesma "carnificina" sempre existiu, de uma forma ou de outra. "Infelizmente tem mesmo a ver com a natureza humana", comenta.
Se ainda não ouviu
Let England Shake
, é natural que se pergunte: não será um disco com uma inspiração tão pesarosa impossível de se ouvir com prazer? Não, porque como a própria PJ expôs ao Guardian, houve dois cuidados na preparação deste álbum, gravado numa igreja da sua terra-natal, Dorset: evitar "a música de protesto dogmática, de andar a bater no peito", e às letras necessariamente opressivas contrapor uma música "animada e motivadora". É assim, por exemplo, na ótima "Glorious Land", em que podemos dar por nós a cantar, alegremente, um refrão ritmado cuja letra reza: "
What is the glorious fruit of our land? Its fruit it's deformed children
".
Mais do que um álbum político, PJ Harvey quis que
Let England Shake
fosse um disco "humano": afinal, independentemente da sua origem, todas as vítimas que escutou falavam da mesma dor, provando que, tal como a tendência para a destruição em massa, também esse sentimento de perda não tem cor nem passaporte e está indelevelmente ligado à natureza humana. Um pouco como uma jornalista, PJ Harvey tentou ser uma narradora, se não imparcial, pelo menos "ambígua", não tomando posição nas histórias que vai contando. Houve quem dissesse que o resultado é uma das visões mais cruas e negras da História do Reino Unido, mas ela garante que, apesar do título e das referências diretas à terra onde nasceu, no âmago de
Let England Shake
não repousa apenas a Union Jack, mas uma noção mais profunda de descontentamento com o estado do mundo, com a qual cidadãos de várias nações se podem identificar. Em entrevista à BLITZ, este ano, argumentou: "Adoro Inglaterra e detesto Inglaterra. E penso que isso é um sentimento comum à maioria das pessoas, relativamente ao país em que vivem. Tens uma ligação ao país onde nasceste, mas ao mesmo tempo há coisas que te repugnam e outras que podem ser terrivelmente desapontantes", ilustra. "Enfurecedoras, até. Todos nós estamos a lidar com isso neste momento, um pouco por todo o mundo".
De longos vestidos negros e penas na cabeça, PJ Harvey apresentou, este ano,
Let England Shake
ao vivo. No lugar da guitarra elétrica dos seus verdes anos, ou do piano de White Chalk, fez-se acompanhar por uma auto-harpa e o silêncio de quem prefere dar voz à música. Ainda há músicas dos primeiros discos, mas só aquelas em que ainda consegue "acreditar", como disse recentemente à GQ. Ainda há PJ Harvey, apesar de a voz gutural ter dado lugar a um falsete mavioso. E, no ano horribilis de 2011, marcado por motins, pela oficialização de uma crise sem fim à vista e por um sentimento de desânimo geral, a voz serena e equilibrada de Miss Harvey, sem tomar partido mas colocando o dedo nas feridas certas, foi mais urgente do que nunca.
Lia Pereira
Artigo publicado na BLITZ 67 (dezembro de 2011)
Artistas de A a Z
¤ PJ Harvey
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Notícia escrita por
LP
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