Marta A Canção
e
O Heroísmo Desportivo do Marechal da Cornualha
foi um single editado pela
Sasseti _ Diapasão
em 1975. Os dois temas incluídos (cantados) são da autoria de Fermanl e a orquestração é de Pedro Osório. A gravação decorreu nos Estúdios da Valentim de Carvalho, em Paço D'Arcos e nela participaram Guilherme 'Scarpa' Inês (
Cid, Scarpa e Carrapa
, bateria),
Zé da Ponte
(baixo),
Carlos Zíngaro
(violino) e
Pedro Osório
(piano). Os coros foram feitos por duas meninas lindíssimas descobertas pelo Pedro Osório (que espero leiam este texto e me contactem para matar saudades).
A Revolução de Abril estava no auge. Fermanl trocara a Faculdade de Medicina do Porto pela de Lisboa e dedicava-se agora a compor e interpretar canções satíricas de crítica social. Porquê satíricas?
"A sátira é uma arma terrível - o riso é uma arma. É um género actualmente pouco cultivado no nosso país, mas que tem tradições profundas na nossa literatura - desde as Cantigas de Escárnio e Maldizer populares no tempo de D. Dinis até aos mais recentes Bocage e Nicolau Tolentino. Nos nossos dias, o género foi abordado pelo José Afonso (Rio Largo De Profundis e o Primo Convexo, por exemplo), Sérgio Godinho (O Charlatão, Arranja-me Um Emprego) e José Mário Branco (Casa Comigo Marta, Meu Santo Antoninho e outras).
Lisboa é uma cidade incrível, dá-se a volta ao mundo e dá-se a volta à vida, vê-se de tudo e não se vive nada - ou quase nada... E é pena. Mas as gentes alfacinhas são muito diferentes das do norte, é tudo mais distante, mais circunspecto, mais exíguo. O que o Porto tem de exuberância tem Lisboa de recato. No norte quando se encontra um amigo é uma algazarra; em Lisboa só há euforia quando o monstro (o futebol e as manifs) sai à rua. Eu tive a sorte de conhecer o José Jorge Letria (Tango dos Pequenos Burgueses) e o Carlos Alberto Moniz (sátiras populares açorianas); ficámos grandes amigos desde o primeiro encontro e passávamos horas a conversar e a rir desalmadamente das azias deste povo tão difícil de desencravar. Foi o Zé Jorge que me convidou para a Sociedade de Autores, uma coisa que hoje em dia quase não tem importância nenhuma mas que nesse tempo era uma honra muito grande - e ficar-lhe-ei para sempre grato por isso.
Ouvi o 'Casa Comigo Marta' quando ainda estava no Porto e aquela história ficou-me cá dentro - quando eu era miúdo a minha mãe e as minhas tias utilizavam frequentemente a expressão "Morra Marta, Morra Farta!" numa ênfase muito Brites de Almeida que significava mais ou menos "perdido por cem, perdido por mil" - mas as duas histórias não se alinhavam. Decidi fazer uma experiência sobre o tema e compus 'Marta A Pastora' com o texto que seria a versão final. O Zé Cid adorou aquela coisa e cantei-a com os Green Windows numa festa em Campo de Besteiros... as voltas que isto dá!...
Eu passava a vida a fazer maquetes de canções e concept-álbuns (que ficavam sistematicamente no tinteiro ou nas cassettes) no estúdio de um outro grande amigo meu, o Luis Martins Saraiva, o CEIS (Centro Experimental de Imagem e Som, improvisado nas caves no Teatro da Comuna, onde fazíamos desde música até animações em desenho sobre película - Mac Laren era o génio a atingir - som óptico e fita perfurada com letra-set e papel adesivo colorido - um desvario de criatividade...). Mas não conseguia uma Editora e o GAC (Grupo de Acção Cultural - Vozes na Luta) - do qual também fiz parte - considerava o meu trabalho como um sub-produto mais ou menos descartável. Uma noite estava na cama a pensar na Marta e em que volta lhe havia de dar para que a carga negativa da sátira resultasse num absurdo não recuperável quando de súbito tive uma epifania e compreendi onde estava a raiz do problema: no título. Marta a Pastora não resultava, a palavra Pastora é demasiado forte, demasiado estranha ao contexto urbano do tema. Não é a Marta-mulher que passa por todo o vilipêndio narrado mas sim a Marta-canção. Uma canção, quer queiramos quer não, acaba por ser um objecto de consumo que flui através dos contextos menos imagináveis e das semânticas mais abstruzas; só a referência ao autor impede que acabe tão alienada como o dinheiro, por exemplo. Portanto, não seria Marta a Pastora mas sim Marta A Canção que conta a sua própria história, desde que a agulha do gira-discos pousa no vynil, farta porque completa, farta 'até mais não' - como diz o Blitz - porque repetida até à saciedade. Ou até fartar - porque se fartura é abundância, o acréscimo é infinito. E vocativo: Farta! - sejas tu a saciá-la! "Fica perfeito" pensei.
No dia seguinte fui ter com o Luis Martins e disparei-lhe: "Luis, já sei o que é que eles querem! Vamos fazer uma maquete para Editar mesmo!" E fizemos, com voz e violas dobradas, Marta A Canção e O Heroísmo - uma outra história, uma desconstrução oriunda de um cruzamento entre O Rei Lear de Shakespear e o processo revolucionário então em curso que visava por um bocado de água fria no fervor militarista em que o Verão Quente se transformara, ameaçando uma escalada social-fascista que perverteria tudo aquilo por que tínhamos lutado. E a maquete ficou pronta.
Na altura era o Pedro Osório que dirigia o Departamento de Música Portuguesa da Sassetti_Diapasão. Telefonei-lhe, marcámos um encontro. Ele ouviu a maquete e decidiu avançar com o projecto. E o disco saiu, com uma capa surrealista do Guilherme Quaresma que ilustrava fielmente as contradições de toda a obra e acabou por ter também formato de álbum com os textos incluídos. Foi uma jornada entusiasmante, os músicos eram todos muito bons a agarraram tudo em poucos minutos. Lembro-me de o Zíngaro me perguntar "O que é que eu vou fazer"? e de eu lhe ter respondido "Conheces o álbum do Dylan 'Desire'? (ele conhecia) Achas que és capaz de fazer um improviso no género do Scarlet Rivera?" Ele foi de uma dignidade exemplar "Bom, acontece que eu não sou o Scarllet Rivera... mas penso que entendo o que queres dizer." E fez, um trabalho magnífico em ambos os temas onde numa única tomada de som consegue criar o envolvimento de vários sintetizadores - só ouvido.
No final o Pedro estava sorridente mas circunspecto - "isto é uma avacalhação..." dizia ele, naturalmente nervoso... Mas eu respondi-lhe "Então, Pedro! Muito riso, muito siso, não é?" Porque, se virmos bem, o problema não está em rirmos mas sim em termos (ou não) um contraponto de seriedade para o nosso riso. E não houve celebração porque o orçamento não dava para mais.
Quando revejo na memória os magníficos diapasões das Torres Gémeas do World Trade Center, tenho vontade de chorar.
Fermanl