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Anarchicks na BLITZ Records: Não é 'rock no feminino', é só 'rock' [entrevista e fotos]

Banda de Lisboa vai editar pela nova editora digital um EP de 5 faixas, We Claim the Right - brevemente nas principais plataformas. Leia aqui a entrevista à BLITZ e veja as novas fotos de Rita Carmo.

É das Anarchicks o próximo lançamento BLITZ Records, We Claim The Right, brevemente disponível disponível nas principais plataformas de streaming - Spotify, Meo Music, Google Play, Deezer, Tidal e Nokia Mix Radio - bem como através da loja digital iTunes. A edição será composta pelos temas "We Claim The Right", "Witch One", "Slide to Unlock", "Sloppy Seconds (com Peaches)" e "My Way".

Leia aqui, em primeira mão, o artigo sobre as Anarchicks que será dado à estampa na próxima edição da BLITZ: ANARCHY IN THE PT São o gatilho rock de uma arma apontada à indiferença: é de quatro mulheres movidas pelo rock o EP BLITZ Records deste mês. Mas não é "rock no feminino", sublinha a baixista Helena Andrade a Paulo André Cecílio. Apesar de toda a sua história de luta contra a discriminação, a desigualdade, o poder instalado, o punk sempre foi um meio onde o machismo garantia um lugar reservado tanto em cima do palco como à sua frente. Mesmo mulheres como Siouxsie Sioux, Chrissie Hynde ou Lydia Lunch, todas elas nascidas no e do punk, eram vistas por muitos como símbolos sexuais em primeiro lugar e como artistas em segundo. O sexismo só começou a ser fortemente abalado nos anos 90, com o surgimento do movimento riot grrrl, casa para bandas como Bikini Kill ou Sleater-Kinney, que se atiraram aos três acordes e à ideologia do-it-yourself e os aliaram a uma dose gigante de consciência feminista de modo a combater o sexismo que grassava. É aí que se inspiram as Anarchicks, quarteto que tem a particularidade de ser composto por quatro mulheres. Mas, lá está, isto não é - ou não deveria ser - particularidade nenhuma. Por oposição a serem uma "banda feminina", as Anarchicks insistem que façamos todos a correcção devida à sintaxe e nos passemos a referir a elas como "a banda", simplesmente. E, convenhamos, a primeira expressão é redutora; há na sua música uma forte influência riot grrrl, naturalmente, mas Helena Andrade, baixista do grupo, é peremptória: "sou suspeita, mas gosto muito da música que faço. E se fosse feita por gajos ia gostar na mesma!". Aí está: não é "rock no feminino", é só "rock". E nós gostamos. Mesmo em Portugal, é possível encontrar hoje em dia vários exemplos de bandas compostas unicamente por mulheres, ainda que o "estigmazinho", como lhe chama Helena, esteja não raras vezes presente. "É do género: "ah, [as Anarchicks] não tocam nada de jeito, mas passam, porque são giras, são boas, têm mamas... Todos os seres humanos têm mamas! Há sempre essa bengala, é estúpido", desabafa.

Uma questão de género Tal problema só se resolverá, naturalmente, quando cada vez mais mulheres se chegarem à frente e decidirem combater o estado de coisas. E as Anarchicks decidiram fazê-lo no final do verão de 2011. Começaram por ser apenas duas - Helena e a ex-vocalista, Priscila Devesa -, passaram a trio com a entrada da baterista Catarina Henriques e, finalmente, tornaram-se numa "relação a quatro" quando a estas se juntou a guitarrista Ana Moreira, tendo entretanto encontrado nova voz pela garganta de Marta Lefay. Mas não são estes os nomes que compõem verdadeiramente a banda; as Anarchicks são, hoje em dia e para além de Lefay, Katari (Catarina), Lola (Ana) e Synthetique (Helena), nomes de guerra escolhidos não para fazer a revolução mas para vincar uma espécie de dupla personalidade. Fora dos palcos, são veterinárias, copywriters, psicólogas, bioquímicas. Em cima deles são o que quiserem ser. A um primeiro EP (Look What You Made Me Do, 2012) seguiu-se o álbum Really?! (2013), editado pela independente Chifre e que as levou a tocar em festivais como o Vodafone Mexefest e o Super Bock Super Rock, este último no palco principal. A crescer desde o primeiro dia, e apesar de já levarem alguma experiência de estrada, as Anarchicks assumem estar ainda a aprender. "Não podemos nunca perder a humildade. É uma sorte estar em grandes palcos, poder partilhar a nossa música com gente que se identifica [com a mesma]", revela Helena, acrescentando que "já tivemos miúdas de onze, doze anos a virem ter connosco no final de um concerto e a dizerem que queriam começar a tocar bateria porque viram a Catarina a fazê-lo. É uma honra sentirmos que somos uma inspiração". Uma inspiração que começou, voltamos ao início, nas riot grrrls, e que se estenderá às riot grrrls de gerações futuras; mas não é só nesse campo particular do punk que as Anarchicks foram buscar as suas influências. Peaches, uma das mães do electroclash, também contribuiu de forma importante - e está, inclusive, presente no EP que a banda edita pela BLITZ Records, numa canção intitulada "Sloppy Seconds". A colaboração entre as lisboetas e a canadiana começou a tomar forma quando todas se conheceram em 2013, durante a edição desse ano do Arraial Pride, tendo daí nascido uma relação de amizade. "Ela [Peaches] convidou-nos para tocar no Festival Automne, curado por ela, na Normandia. Fomos mantendo o contacto até que lhe dissémos que era brutal que ela participasse numa canção nossa, o que ela aceitou", explica Helena. Para além do tema com Peaches, fazem parte de We Claim The Right quatro outras canções. O título do EP é retirado da canção com o mesmo nome, que se tornou também, há alguns meses, num movimento próprio. "A Social Animals [agência de media sociais] propôs-nos fazer um vídeo com a [apresentadora] Carolina Torres no sentido de divulgar tanto a canção como a mensagem, que gira em torno da questão das mulheres reclamarem pelos seus direitos, quer na música, quer na vida", conta-nos. "Pedimos às pessoas que tirassem uma foto com a hashtag e que nos dissessem aquilo que achavam que estava mal na sociedade. Foi bastante falado, e houve muita adesão e interesse por parte do público".

Não podemos, portanto, retirar a acção directa às Anarchicks - aliás, a sua música consiste precisamente nisso. "Não queremos causar indiferença. As pessoas podem não gostar de nós, desde que lhes causemos algum tipo de sensação", esclarece Helena. De facto, um dos motes associados há muito às Anarchicks é o de que elas são o gatilho de uma arma que é a música. Uma arma apontada à indiferença, ao sexismo, e a todos aqueles "receptivos a levarem um tiro". Amem ou odeiem, as Anarchicks aí estão. E vieram para ficar por muito tempo porque, afinal de contas, esta é "a banda". "Há uma química muito forte. Já toquei com outras pessoas e não senti o que sinto com elas. Sentimos que estamos a viver o nosso sonho", conta Helena. E, se assim é, que nunca acordem. Texto: Paulo André Cecílio Fotos: Rita Carmo/Espanta Espíritos