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No dia em que eu... pedi vinil de música portuguesa [crónica de Rui Miguel Abreu]

Hoje, Rui Miguel Abreu usa a sua coluna para enviar um recado à indústria e pedir mais música portuguesa impressa em vinil...

 Na passada sexta-feira vieram parar-me às mãos três vinis com música portuguesa. Provavelmente não seria possível encontrar três casos mais díspares: o ep Ectoplasma dos Tropa Macaca, o segundo e homónimo álbum dos Orelha Negra e ainda o mais recente trabalho do projecto de Luís Simões, Saturnia, com o misterioso título ? ? ?. Noise abstrato, hip funk orgânico e psicadelismo de tendências kraut. Em comum? O vinil, nada mais.

Tenho perfeita noção que muito mais anda a ser

impresso em vinil e para tal a actividade de etiquetas como a leiriense Rastilho (que aliás é responsável por esta edição dos Orelha Negra) ou a lisboeta Groovie são meritórias para todos os que ainda têm uma dependência analógica do som. No quadro acima descrito, aliás, importa referir que tanto a edição dos Tropa Macaca como a de Saturnia são da responsabilidade de editoras internacionais. Mais uma ideia solta: em entrevista ao meu amigo Miguel Arsénio, o ex-crítico Jay Ruttenberg, homem do leme da fanzine de culto The Lowbrow Reader, referia as edições em vinil dos álbuns Movimento Perpétuo e Guitarra Portuguesa, de Carlos Paredes, pela norte-americana Drag City como a sua mais recente obsessão.



Música portuguesa impressa em vinil: o mercado para isto deve ser microscópico, certamente, mas se até nomes maiores já perceberam que há por aqui uma clientela interessada (falo de gente como David Fonseca, Xutos & Pontapés ou The Gift, todos com álbuns impressos neste formato) porque não hão de surgir no mercado mais re-edições de clássicos em vinil, mesmo que em edições limitadas? A prova de que existe procura é o preço que alguns discos portugueses conseguem alcançar no mercado de colccionadores, um sinal que as editoras lá fora sempre interpretaram como claro para avançarem para a reedição dos seus fundos de catálogo neste suporte. Por cá, no entanto, os exemplos ainda são raros: Como Uma Viagem na Palma da Mão de Jorge Palma é uma gota num oceano de possibilidades a que acrescem mais alguns títulos lançados, por exemplo, pela Groovie. De Fausto e José Mário Branco a Zeca Afonso, Banda do Casaco, António Variações, Corpo Diplomático, GNR, Pop Dell'Arte, Mão Morta ou, para falar em coisas mais recentes, Cool Hipnoise ou até Mind Da Gap e Sam The Kid, são inúmeros os nomes que lançaram trabalhos que há anos que não se encontram em vinil ou até que nunca estiveram disponíveis nesse formato e que eu não me importaria de acrescentar à coleção numa destas próximas sextas-feiras. Ou em qualquer outro dia da semana, para dizer a verdade. Por favor?...



Crónica de Rui Miguel Abreu