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António Variações

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António Variações: Apresentação -
"Variações é uma palavra que sugere elasticidade, liberdade. E é exactamente isso que eu sou".
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António Variações: obra a leilão em Novembro [vídeo]   (Quinta, 24 de Setembro de 2009 às 18:38, 14 )

Será que há santos na pop?   (Segunda, 22 de Junho de 2009 às 16:22, 16 )

António Variações morreu há 25 anos   (Sábado, 13 de Junho de 2009 às 19:55, 45 )

Filme sobre António Variações envolto em polémica   (Quarta, 14 de Janeiro de 2009 às 14:08, 21 )

Biografia
Se fosse vivo, teria 63 anos de idade. Bastaram 3 anos de carreira para ser reconhecido, ainda que o seu contributo para a música fosse enaltecido postumamente. A lenda de António Joaquim Rodrigues Ribeiro é algo que pertence ao imaginário de todos os portugueses, mesmo que entoem "Canção de Engate" ao karaoke e ignorem quem a interpreta. Excêntrico é o adjectivo sobrepujado mais associado ao homem que reinventou uma pop obsoleta. No entanto, só uma pluralidade de designações como singular, pioneiro, artista, subtilmente directo, etéreo, incompreendido, exigente, oportunamente provocador e, acima de tudo, insubstituível é que mais se coaduna com a sua imensurabilidade. 

Lugar do Pilar, pequena aldeia da freguesia de Fiscal, do concelho minhoto de Amares, passou a vir no mapa depois de sido o local de nascimento de Variações no dia 3 de Novembro de 1944. Filho de Jaime Ribeiro e Deolinda de Jesus, ambos camponeses, cedo trocou a sua terra natal por Lisboa após concluir a sua instrução primária, tal era a fixação pela urbe, em especial a capital. Em 1976, posterior ao término do serviço militar obrigatório em solo angolano, salta de Londres para Amesterdão, onde aprende a arte de cortar cabelos. De regresso a Lisboa, tenta sustentar-se com inúmeros empregos, sendo a profissão de cabeleireiro à qual mais tempo dedicou. Abriu o primeiro salão unissexo em Portugal, coisa abismal para uma nação que apenas tinha tenros anos de democracia. As noites, passava-as a expressar livremente a sua paixão pela música na vida noctívaga alfacinha (destacam-se a discoteca Trumps e o Rock Rendez-Vous, na qual apresentava-se com o projecto Kamikaze, como um contributo para a sua projecção). Aliás, a sua devoção à música tem origens no seu interesse pela mesma enquanto cachopo (a preferência pelas romarias locais, onde a música era uma constante, ao trabalho da lavoura ilustra bem essa situação).

Graças a alguns clientes seus, ia conseguindo contactos de profissionais da indústria discográfica e, em 1978, apresenta uma maqueta com alguns temas à editora Valentim de Carvalho e nesse ano assina contrato. Mário Martins e Nuno Rodrigues, seus produtores, ultimaram-lhe, quanto ao estilo musical a enveredar, uma escolha entre o folclore ou a Pop, coisa que o próprio não conseguiu decidir de outra forma senão aliar os dois géneros - passo que o leva a descrever a sua música " entre Braga e Nova Iorque ". 

Em Fevereiro de 1981 entra nos meandros da notoriedade pública ao surgir pela primeira vez na televisão, nomeadamente no programa da RTP "Passeio dos Alegres", conduzido por Júlio Isidro. Um ano depois, dá-se o lançamento do seu primeiro single , "Povo que Lavas no Rio" (juntamente com "Estou Além"), a primeira versão do tema imortalizado por Amália Rodrigues a ultrapassar as fronteiras do fado. Aliás, a diva do fado era a primeira das suas referências, chegando a deixar-lhe uma dedicatória, na sua própria caligrafia, na contracapa do seu LP de estreia Anjo da Guarda : "À Amália que sempre me deu e fez sentir a importância duma verdadeira identidade ". O álbum concedeu-lhe os clássicos "...O Corpo É que Paga" e "É p'ra Amanhã...". Com efeito, o Verão de 1983 foi o período de espetácculos ao vivo pelas aldeias do país.  

Por esta altura o sucesso já tinha cativado uma franja de críticos, o que o conduz a persistir a provar o que vale na gravação do seu segundo LP, Dar e Receber , que contou com a colaboração de pioneiros Heróis do Mar. "Canção de Engate" invade as rádios e torna-se a grande faixa conhecida pelo grande público anos mais tarde. Um semana antes da edição do álbum, já Variações se encontrava internado no Hospital Pulido Valente devido a um problema brônquico-asmático. Este era apenas um dos primeiros indícios da sua broncopneumonia (consequência do seu quadro clínico como portador do vírus do HIV), doença que vitimizou o cantor a 13 de Junho de 1984. Especula-se que se tinha tornado, assim, o primeiro caso de SIDA público em Portugal.  

Após o seu desaparecimento, a sua obra e pessoa viraram assunto tabu (em grande parte ao estigma social associado à SIDA), pelo que um reconhecimento devido passou ao lado. Apesar de Tu Aqui de Lena d'Água, uma versão de "Canção de Engate" dos Delfins e uma colectânea no 10.º aniversário da sua morte, em jeito de tributo com a assinatura de vários grupos, muitas das músicas portuguesas da actualidade injectam as influências de Variações na sua música sem sequer se aperceberem. Somente em 2003, a sua obra praticamente ignorada passou a ser reconhecida com toda a justiça quando o projecto Humanos , liderado por Manuela Azevedo, Camané e David Fonseca, que editou um álbum repleto de inéditos há muito "perdidos" entregues pelo irmão de António, Jaime Ribeiro, esteve à altura de uma homenagem bastante aplaudida tanto pela crítica como pelo público. Há que congratulá-los pelo incutir do seu legado nas novas gerações.

A imagem paradoxal de homem com barba ostentosa, vestido e adereçado de uma forma extravagante era excessiva para um país cuja mentalidade custa a progredir. Um passo ousado que Variações não temeu em arriscar, até porque não estava a espelhar mais que aquilo que sempre foi. Inevitavelmente, os holofotes da Rua do Carmo apontavam para o homem que sempre sobrevalorizou a estética à moda, dizendo que a última privava-nos da nossa liberdade enquanto seres criativos. Um homem que, com base nos adágios populares, desmantelava a mente, comportamento e cognição humana como nenhum psicólogo o alcançaria. Embora tenha afirmado " Dá-me a ideia que nasci demasiado cedo " no jornal Sete em 1982, fica a ressalva que creio que ele nasceu na altura certa, pois destacava-se por ser o único, caso contrário, nos tempos de hoje, seria mais um a tentar conquistar o seu nicho de mercado por apelo à excentricidade bizarra, para além de que muita banda é elogiada por aquilo que fazia há 25 anos atrás .

 

 
Discografia
bz.stories/36096
Dar e Receber (EMI, 1984) -
Dar e Receber (EMI, 1984)

Pedro de Ayres Magalhães. Este é o nome que assinou o regresso do músico-compositor desligado de um selvático panorama musical internacional delimitado pelo advir da MTV, o início da massificação do CD ou pelo recordista Thriller de Michael Jackson. A aliança de ambos foi bipartida em modo competente durante os dias 6 e 25 de Fevereiro de 1984. Tudo isto meses antes da fundação do extinto jornal Blitz, em Novembro.

O dedo dos Heróis do Mar na produção do LP manifesta-se num tom variavelmente garrido: sintetizadores agrestes em temas de cariz confessional como " Perdi a Memória " - faixa corpulenta justamente por causa da repetida doutrina do prazer individual como bem supremo da vida ("E ao corpo fiz a promessa/só serve p'ró que eu quiser") - e o já quase decorado " Canção de Engate ". Os contornos de balada só lhe ficam bem quando se trata de uma descrição delicada do que realmente é a lei da atracção vista através do prisma de cada uma das partes: a introdução feita por alguém consumido pela solidão e os segundos versos conduzidos por aquele que "busca quem quiser". " Quem Feio Ama... " insinua um retorquir ao tema anterior, na medida em que indicia, com a ajuda de adufes minhotos, uma correlação entre a aparência e a escolha de parceiros.

Se em Anjo da Guarda a referência primordial foi Amália Rodrigues, já no seu sucessor é Fernando Pessoa e a mãe do cantor, Deolinda de Jesus, quem lhe concedem a influência - eis a tríade de inspirações de António Variações. Logo em " Canção " há uma admiração pelo autor de "Mensagem" ao transcrever a sua poesia (pertinente ou não, Variações morreu precisamente no dia 13 de Junho, nascimento de Pessoa). Já " Deolinda de Jesus ", sem querer desrespeitar a senhora que deu à luz o talento em causa, é a decepção do registo.

Distinto pela sua voz semi-andrógina, o autor de "Estou Além" robustece ainda mais essa conotação na faixa-título " Dar e Receber " (no qual o baixo contagioso de Magalhães é assíduo), cuja premissa apela a uma reciprocidade humana, pois "devia ser a nossa forma de viver", e no inovar de um fado equilibrado pela electrónica da pop em voga em " ...Que Pena Seres Vigarista ". Apesar de já visivelmente debilitado, o intérprete apostou na extravagância como apuramento gráfico da capa em relação ao vinil de estreia.

Em perímetros genéricos, a saga de um indivíduo que, devido à sua complexidade interior, quer ser ouvido pelo resto do Mundo continua. Parece até que ele se segrega a si próprio, enclausurando-se numa bolha ao rejeitar os moldes de uma sociedade padronizada (" Erva Daninha Alastrar "), chegando até a bater com pé relativamente ao seu carácter em bruto ao rematar "Só eu sei que sou pedra/ sou pedra dura de talhar"). Ao partilhar a sua identidade, não receia se tiver que arrancar episódios do passado em " Olhei p'ra Trás " (possível paralelismo com "Sempre Ausente" do primeiro disco), quando abandonou a sua aldeia para conhecer a cidade.

Há que reter que se não fosse um dos projectos mais vanguardistas a nível nacional como os Heróis do Mar, talvez Dar e Receber não teria sobrevivido apenas com a valiosa fatia de António (não nos esqueçamos que a parte de arranjos e instrumental estava para ele como fazer bolos estava para um electricista), da mesma maneira se o inverso tivesse sucedido. Está-se, portanto, perante um trabalho resultante de uma coligação, cujas partes souberam contribuir cada uma à sua maneira. Com um new wave aprumado, é mais um manifesto aceso da sua vida, do seu pensar e das suas experiências.

Alinhamento original (Todas as letras da autoria de António Variações, excepto o poema "Canção", de Fernando Pessoa):

Lado A

1 - Perdi a Memória

2 - Canção de Engate

3 - Canção

4 - Dar e Receber

Lado B

1 - Quem Feio Ama...

2 - ...Que Pena Seres Vigarista

3 - Olhei p'ra Trás

4 - Erva Daninha Alastrar

5 - Deolinda de Jesus

bz.stories/35998
Anjo da Guarda (EMI, 1983) -
Anjo da Guarda (EMI, 1983)

Corria o ano de 1983 e António Variações já tinha percorrido um sem-número de programas de TV como forma de promoção e tinha feito a primeira parte de um concerto de Amália na Aula Magna. Chegara a altura de editar o vinil pelo qual muito tarado musical andava a salivar. Em colaboração com músicos dos Grupo Novo Rock, produzido por Moz Carrapa e gravado nos estúdios da Valentim de Carvalho em Paço d'Arcos, a obra-prima viu a sua nova morada nas lojas de discos ainda no mesmo ano.

Para a sua estreia, Variações quis pegar na sua musa - Amália Rodrigues - e dedicar-lhe o primeiro esforço discográfico. E assim foi. Ainda que só uma faixa faça alusão explícita à fadista (" Voz-Amália-de-Deus "), na qual o intérprete crê que "todos nós temos Amália na voz", quer queiramos, quer não. Ironicamente, o resto dos temas não passa de sólidos resultados finais das suas primeiras maquetas caseiras às quais a sua equipa de produtores e músicos deram realmente forma. Antes disso, Variações, ao ignorar uma única nota da escala musical, errava na métrica e só tendia a eclodir o seu timbre inigualável.  

A variante híbrida de uma sonoridade folclórica (denunciada pela secção da percussão) e um modernismo synth pop toma forma no épico " É p'ra Amanhã... ", leve pregação aos servos da indolência que vêem os dias a passar. Na mesma veia lírica, existe um momento de sabedoria popular em " ...O Corpo É que Paga ", hino transversal aos praticantes de um hedonismo extremado, mas embora cientes das sequelas nocivas do mesmo, persistem em bater com a cabeça contra a parede ("Deix'ó pagar, deix'ó pagar/ se tu estás a gostar"). Quiçá uma auto-crítica.  

Tudo bem que todo o LP é carimbado pela sua parte autobiográfica, mas tal torna-se mais nítido quando se mergulha na mente efervescente do cantor em " Sempre Ausente " - introspecção absoluta que narra o conflito de um António ("Diz-me que conversa estás a ter contigo") que é olhado de soslaio pela sociedade da época ("Lá vai o maluco/ lá vai o demente") que, para além de ter um conceito de extraordinário primário, dá relevância ao alheio do que aos próprios afazeres. Os desabafos de personalidade prosseguem quando se entranha em " Linha-Vida " e uma previsão é pedida, bem como no imprudente e catastrófico (e talvez agoirante, dada a fatalidade do artista no ano seguinte) " Visões-Ficções (Nostradamus) "

Aquele que não escutar o álbum com os cinco sentidos, acaba por não notar que " Anjinho da Guarda " exaspera um rock quase roll à medida que dedica novamente umas frases, se bem que ambíguas, à rainha do fado enquanto " Quando Fala um Português " é implacável num retrato do português impulsivo e caótico na hora da discussão, com direito a chinfrineira no fade out . Para concluir, ficam a faixa "escondida" e menos explorada de " Onda Morna " e a simplicidade poética de " Estou Além " que parece ter sido escrita para todos nós - sentido filosófico apuradíssimo para quem apenas a 4.ª classe tirou. 

Denota-se que António Variações depositou em Anjo da Guarda muito daquilo que experienciou nas viagens pelas metrópoles fervilhantes, mas também não recusou a raíz bragantina. Dito isto, é quase imperativo chamar-lhe um LP brilhante tal é a riqueza de letras despretensiosas adicionada. Poderia falar-se também em influências musicais (e havê-las, há, mas não musicais como o caso do poeta algarvio semi-analfabeto António Aleixo), mas por mais rebuscadas que sejam, são tão-somente difíceis de se comparar a um génio que se eclipsou.

Alinhamento original (todas a letras da autoria de António Variações):

Lado A

1 - ...O Corpo É que Paga - 3'27"

2 - Visões-Ficções (Nostradamus) - 5'49"

3 - Quando Fala um Português - 4'29"

4 - Sempre Ausente - 5'59"

Lado B

1 - Linha-Vida - 4'05"

2 - É p'ra Amanhã... - 4'04"

3 - Onda Morna - 4'33"

4 - Anjinho da Guarda - 4'57"

5 - Estou Além - 4'54"

6 - Voz-Amália-de-Deus - 4'25"

Letras & Tablaturas
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Informação da banda
Género musical: Pop, Rock

Editora: EMI, Valentim de Carvalho

Membros: António Variações

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