Revelação britânica encheu a sala da discoteca lisboeta para um espetáculo curto mas incisivo. A timidez, essa, escondeu-a atrás da fúria da guitarra e de uma voz irrepreensível.
Depois de uma passagem fugaz, mas marcante, no palco alternativo do Optimus Alive'11, a britânica Anna Calvi regressou a solo nacional para o primeiro espetáculo em nome próprio. E transformou-o num sucesso retumbante. O Lux foi pequeno para receber a voz imensa da artista londrina, que passou a pente fino a estreia homónima nos registos longa-duração.
O início do concerto fez-se ao som do instrumental que também abre
Anna Calvi
, o disco. "Rider to the Sea" encosta a artista, de camisa vermelho carne, em transe com a distorção da sua guitarra, ao lado esquerdo de um palco que partilha com os dois exímios que a acompanham (a multi-instrumentista Mally Harpaz e o baterista Daniel Maiden-Wood). O trio íntimo foi arrepiando caminho entre canções sensíveis como "No More Words", quase sussurrado, ou "First We Kiss", tão apaixonada e apaixonante quanto em disco, e a explosão de temas como "Blackout", com a bateria cavalgante a ajudar a voz operática de Calvi a seguir para bom porto, ou "I'll Be Your Man" (as influências de PJ Harvey aqui, por muito que ela nos tente convencer do contrário, não se recusam), uma das mais fervorosamente aplaudidas.
É entre os temas que o público vislumbra uma artista tímida, que agradece o carinho com uma voz tão ténue que se torna difícil de acreditar no poder que empresta às canções. A pista do Lux está cada vez mais quente e os ânimos não param de se exaltar quando passa repentinamente de um "Surrender" diabolicamente perfeito, "roubado" a Elvis Presley, para o delicado "Morning Light". Um coro desponta então ao nosso lado para acompanhar o belíssimo "Suzanne and I", com bateria embrutecida e, facilmente, um dos momentos mais fantásticos da atuação.
"Como estão todos? Estão bons?" pergunta Calvi, de sorriso nos lábios. E é então que os aplausos dirigidos à cantora se confundem com outros, diretos para a pessoa que se lembrou de voltar a ligar o ar condicionado. A ondulante "Moulinette" antecede um dos outros pontos altos do espetáculo, quando a cantora vai buscar ao fundo dos pulmões a força necessária para cantar "Desire", que teve direito até a palmas a compasso. "Muito obrigado por nos receberem", diz Calvi antes de apresentar a dupla que a acompanha. "Obrigado, honestamente, por nos terem vindo ver tocar. Foi uma noite muito especial", acrescenta ainda antes de terminar o alinhamento principal do concerto com uma interpretação livre, e inspirada, de "Love Won't Be Leaving", orgástico, que eleva a guitarra de Calvi ao expoente de heroína da noite.
Para o encore, curto mas eficaz, ficaram reservadas duas das favoritas do público, que não se coibiu de as exigir. "Vem tudo aí", descansou Calvi, sorridente. A inspiração de Jeff Buckley é inegável em "The Devil" (juramos que ouvimos "Corpus Christi Carol" aqui) e é então, mais solta porque o fim está iminente, que Calvi estica a voz além do imaginável. Mas é com a magnífica versão desgarrada de "Jezebel", de Édith Piaf, que Calvi encerra um concerto muito perto da perfeição. Uns dirão que foi curto, nós dizemos que durou exatamente aquilo que devia durar. E aplaudimos, sem reticências.
Texto de:
Mário Rui Vieira
Fotos de:
Rita Carmo/Espanta Espíritos