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Andrew Bird em Lisboa [fotos + texto]
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Norte-americano deu, na noite de Domingo, o primeiro concerto de uma mini-digressão por Portugal. Em Lisboa, ambas as datas no São Jorge esgotaram. |
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Foi há cerca de quatro anos que, graças ao inspirado
The Mysterious Production of Eggs
, Andrew Bird ganhou um lugar no coração dos adeptos de canções melodiosas e solarengas, ainda que letradas e, a espaços, roçando a erudição. De lá para cá, a nobreza e o apelo pop dos álbuns que se seguiram -
Armchair Apocrypha
e, já este ano,
Noble Beast
- garantiram-lhe a continuação do culto. Em Portugal, a coisa pia mais fino: impressionado com o talento e, presumimos, com a afabilidade do americano, o público nacional tem acarinhado o violinista e compositor com tal esmero que, ontem à noite, no primeiro de dois concertos esgotados no Cinema São Jorge, o tímido Andrew Bird se viu "obrigado" a confessar o amor pelo nosso país. "Já há muito tempo que esperava voltar cá", contou, já perto do final do concerto. "Há outros países onde as pessoas também são hospitaleiras mas aqui, não sei, parece-me mais... genuíno.
Good job on your country!
", acabaria por resumir, embaraçado como sempre que se dirigia à plateia.
Com os seus instrumentos de trabalho, porém, a desenvoltura é outra. A esta altura do campeonato, meio mundo já sabe que, para apresentar ao vivo as suas canções, Andrew Bird se serve de um violino e de uma guitarra eléctrica, cujo som vai gravando e reproduzindo, posteriormente, com a ajuda de pedais de efeitos. O método não será da sua autoria nem é, certamente, seu exclusivo, mas ameaça ficar associado à sua figura, ontem à noite particularmente esquálida e despenteada.
Foi nesses cansados preparos - chegara de Madrid de autocarro, onde sonhou que era perseguido por zombies, conforme revelou a certa altura - que Andrew Bird apareceu em palco, pouco depois da hora prevista. Com o habitual, e discreto, fato escuro, começou por gravar a primeira de muitas "trilhas" no violino, colocando também a girar uma grafonola gigante de duas "cabeças" e atirando para um canto do palco os seus sapatos tipo bota. Sempre com um ar compenetrado, quase sisudo, a contrastar com o sorriso envergonhado com que assinala o final de cada música, o artista solta também o famoso assobio, ao qual o predicado "mavioso" não faz justiça, e a voz, insuspeitamente poderosa para alguém de aparência tão frágil e insegura.
Em palco, e se descontarmos a tal grafonola giratória, Andrew Bird está sozinho. De um lado tem um xilofone que irá colorir a graciosa "Plasticities", do outro o estojo do violino; por vezes, um assistente vem trazer-lhe uma nova guitarra ou ajeitar a grafonola. Mas quando ouvimos canções como "Sweet Matter" - um cruzamento entre "Dark Matter" e "Sweetbreads", baseada num sonho que teve outrora - "Oh No" ou "Effigy", ambas do novo
Noble Beast
, facilmente acreditamos que é uma pequenina orquestra, ou um conjunto de baile, ou uma caixinha de música que o acompanham.
Em disco e ao vivo, Andrew Bird não facilita. O refrão de "Plasticities", por exemplo, é propositadamente terraplanado, nunca chegando a explodir; em "Natural Disaster", a própria letra refere-se à personalidade pouco "easy going" do seu autor. Andrew Bird, pressente-se na música e no discurso, é auto-crítico, analítico e cerebral, o que por vezes torna o espectáculo menos caloroso do que seria de esperar quando em jogo há músicas como "Imitosis" ou "The Giant of Illinois", escrita para a compilação
Dark Was The Night
. Em concerto, Andrew Bird preocupa-se tanto com as costuras das canções como com o corte final, fazendo do espectáculo um jogo de paciência e pormenor que o público do São Jorge soube apreciar.
Longe de basear o concerto exclusivamente no último disco, Andrew Bird recuou a 2001, por exemplo, com "Why?", do álbum The
Swimming Hour
. "Toco esta canção em todos os concertos, há sete anos. Nunca me canso dela, não sei porquê". Arriscamos que seja por fugir um pouco ao "modelo" actual, com o seu tom vagamente sarcástico e encenado, sobre esqueleto blues. O regresso às raízes prolongou-se no primeiro encore, com "Some of These Days", de 1998, a ser repescada por uma boa causa ("Estou com saudades de casa", explicou) e em modo "unplugged", ou seja, sem amplificação no violino.
O público rejubilou com a espontaneidade desse gesto e exigiu, com estrondo, novo encore. Da cartola de Andrew Bird saiu então uma bela versão, dedilhada ao violino, de "Weather Systems", a encerrar um concerto onde é complicado escolher um ponto alto. Mas não falar de "Tenousness",
a tal canção
que o nativo de Chicago escreveu sentado num miradouro lisboeta, ou de "Anonanimal", em que explora a sua profunda relação com a natureza, é ocultar algum dos mais belos momentos da noite.
No final, o homem que se apresentou com um singelo "My name is Andrew and I'm from Chicago" foi com a organização do concerto conhecer uma casa de fados. Bem sabemos, pois ele explicou-nos ontem, que Mr. Bird não gosta de partilhar os sonhos, mas apostamos que da visita nocturna nascerá inspiração para mais agitação interna e quem sabe se novas canções. Afinal, Portugal já parece ser o segundo ninho desta mui preciosa ave rara.
Andrew Bird toca novamente no São Jorge, em Lisboa, na Segunda-feira, 25 de Maio. Os bilhetes já estão esgotados. Na Terça-feira, 26 de Maio, actua no Theatro Circo de Braga.
Fotos de:
Rita Carmo/Espanta Espíritos
Texto de
Lia Pereira
Artistas de A a Z
¤ Andrew Bird
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Notícia escrita por
RCarmo
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